Resenha – A mãe de todas as perguntas: reflexões sobre os novos feminismos
por Bruno Lisboa
em 06/11/17

Nota:

 

A americana Rebecca Solnit é uma das escritoras de maior destaque nos dias de hoje. Dona de uma forte e embasada opinião, Solnit costuma abordar os mais diversos temas em suas obras (política, cultura, meio ambiente…), mas tem no feminismo a sua principal força motriz. Com carreira iniciada no final dos anos 80, a autora tem no seu currículo dezenas de obras relativas ao tema. A mãe de todas as perguntas é o seu lançamento mais recente, lançado por aqui via Companhia das Letras.

Por mais que a obra tenha em seu título uma alusão ao feminismo contemporâneo, em A mãe de todas as perguntas Solnit utiliza o tema principal como ponto de partida para problematizar um série de outros tantos relativos a contemporaneidade. Se por um lado sua análise é centrada em exemplos e situações ocorridas nos EUA, por outro a autora consegue abordá-los de forma tão abrangente e universal que, facilmente, é possível estabelecer uma conexão com o que acontecesse no Brasil na atualidade.

A mãe de todas as perguntas, de certa forma, soa como uma continuidade natural do ótimo Para educar crianças feministas, livro de Chimamanda Ngozi Adichie, pois se o segundo aborda como devemos educar a nova geração, o primeiro vai de encontro ao mundo que estamos e de como precisamos, de fato, mudá-lo.

De temática variada, Solnit ao longo do livro cutuca várias feridas abertas relativas ao fato de ser mulher que sofre com a ainda imperativa cultura do estupro, o enorme número de assassinatos, entre tantos outros dilemas. Mas o tema que permeia toda a obra é o silêncio imposto a elas. Afinal é notório (e vergonhoso) observar que pessoas do sexo feminino são, até hoje, deixadas em segundo plano. Numa sociedade machista a mulher não tem voz, não pode se expressar e quando o faz é tida como vitimista.

Outro ponto interessante da obra é o questionamento imposto na baixa presença das mulheres no mundo literário. Nós aqui no Poderoso, inclusive fazemos parte da campanha “Leia mulheres” que valoriza a presença feminina no universo da escrita. Porém, revistas como a norte-americana Esquire publicou em 2015 uma lista contendo “80 livros que todo homem deveria ler” contendo apenas um livro escrito por uma mulher (à saber: É difícil encontrar um homem bom e outros contos de Flannery O’Connor). A aversão a lista gerou o contra-ataque de Solnit, no ensaio “80 livros que as mulheres não deveriam ler”, que repercutiu tão bem que levou a publicação a assumir o mea culpa” e se reiterar.    

Importante para nossos tempos, A mãe de todas as perguntas é uma pungente obra e obrigatória leitura, pois traz à tona questões pertinentes a sociedade que ainda está presa a questões antiquadas relativas ao sexismo que “teima” em permanecer na contemporaneidade. Como diz a própria Solnit em A mãe de todas as perguntas muitos avanços já foram promovidos, mas ainda há muito o que fazer.

Obs. Parabéns a Companhia das Letras por colocar o feminismo nas prateleiras das livrarias brasileiras com lançamentos relevantes.

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O livro foi enviado pela editora

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