Resenha – A menina da montanha
por Patricia
em 25/03/19

Nota:

“A menina da montanha” entrou no meu radar porque apareceu em várias listas de leituras preferidas de 2018 – inclusive listas de personalidades como Bill Gates e Barack Obama.

O livro é um apanhado de memórias de Tara Westover – hoje uma doutora pela Universidade de Cambridge. Porém, para chegar aqui foi uma luta muito mais árdua do que muitos pensariam.

Tara nasceu em Idaho, em uma comunidade mórmon. Seus pais tiveram sete filhos e seguiam os preceitos mórmons ao pé da letra. Isso significa que as crianças foram educadas em casa, não tomavam vacinas e não tiravam certidões de nascimento até seus 7-9 anos. Quando Tara precisa de sua certidão, sua mãe não tem certeza da data de seu nascimento e nem mesmo de quantos anos ela tem. Nem todos os mórmons vivem dessa maneira, mas a força do patriarca fazia com que a família seguisse o que ele achava correto.

O pai de Tara tinha idéias muito claras sobre o que ele achava certo e errado: as escolas eram um sistema do governo para afastar as pessoas de Deus, hospitais e médicos envenenavam as pessoas com seus remédios pagãos, o bug do milênio ia acontecer e seria a vingança de Deus contra um mundo que se perdeu. Não era raro que ele usasse os iluminati como argumento para atacar algo.

Essas crenças cegas levaram a cenas de negligência impressionantes: todos os filhos trabalhavam no ferro-velho do pai e se machucaram gravemente enquanto operavam máquinas pesadas. Com a recusa de ir ao médico, o pai fazia com que a mãe desenvolvesse óleos naturais para tratamentos que seriam mais rápidos – e com menos dor – se fossem ministrados por um profissional, incluindo queimaduras sérias e cortes profundos.

Junte a tudo isso a crença de que mulheres eram feitas para cuidar da família e de seus maridos e temos, também, uma repressão intensa a decotes e vestidos que mostrassem mais do que os tornozelos ou tudo que era mais “feminino”. Quando Tara experimenta gloss, seu irmão mais velho, Shaun, a chama de puta. Quando a vê conversando com um menino, ele torce seu braço quase até quebrá-lo para, dessa vez, ela assumir que é mesmo uma puta.

No porão da casa haviam alguns livros jogados e um dos irmãos mais velhos de Tara, Tyler, se interessa por eles. Ele aprofunda seus conhecimentos rasos e decide ir para a faculdade. Surge uma cisão na família. Ir para uma escola “pagã” é abandonar a família e não há escolha. O pai de Tara é categórico. Tyler vai mesmo assim.

Aos 17 anos, Tara decide que quer seguir o exemplo de Tyler e ir para a faculdade. Ela relata diversas vezes o medo intenso que tinha de contar sua decisão ao pai mesmo quando sua decisão já estava tomada. O baque é imediato: em uma de suas primeiras aulas, ela pergunta ao professor o que significa “holocausto” – já que é uma palavra que nunca tinha ouvido antes.

A Universidade e suas colegas, ainda que em grande maioria mórmons, não estão enclausurados em um mundo religioso e Tara começa a ter noção de tudo aquilo que ela não sabe. A força disso é poderosa e saber mais, se empenhar mais e entender as coisas torna-se sua força motor. Porém, quanto mais ela se integra ao mundo, mais ela se afasta da família. O preço do conhecimento é jogar luz em tudo aquilo que é obscuro.

A discussão do livro vai um pouco além da religião em si – foi uma Universidade religiosa que acolheu Tara mesmo sem muitos conhecimentos prévios. Portanto, ela faz questão de dizer no começo do livro que sua história não deve ser um julgamento religioso.

De fato, há suspeitas de que seu pai seja bipolar e, em seus momentos maníacos, ele perca completamente a noção do que era real ou não. Tudo isso somado ao fato de que eles viviam em uma montanha isolados do resto da comunidade pode ter contribuído para a situação.

Há diversas passagens em que Tara vai testar a empatia do leitor. Como cresceu sendo totalmente submissa, é difícil de acompanhar seu processo de decisão sem perder a paciência com suas incertezas. Nessa hora, ela mostra como o controle da família era forte em sua vida, mesmo depois que já estava avançando em sua carreira acadêmica.

Narrado em primeiro pessoa, “A menina da montanha” é um testamento do que a educação pode fazer e como o conhecimento pode te tirar das trevas. Mas antes, vai te fazer questionar muito do que você achava que sabia. Tara nos ensina que estar aberto a esses questionamentos talvez seja a verdadeira liberdade.


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