Resenha – A parábola do semeador
por Patricia
em 21/11/18

Nota:

No começo do ano, tive minha primeira experiência com Octavia E. Butler quando li Kindred. Foi uma revelação descobrir essa autora, que chegava ao Brasil pela primeira vez mais de quarenta anos depois de sua primeira publicação, mas a editora Morro Branco não parou por aí. “A parábola do Semeador”, primeiro volume de uma duologia, foi publicado no começo de 2018 e, até o final do ano, “Despertar”, primeiro volume de uma trilogia, também será publicado.

Ao ver “parábola” no título, logo imaginei algo relacionado a religião. E de fato A parábola do semeador é contada no livro de Mateus.

Nesta obra de Butler, acompanhamos a história de Lauren Olamina. Seu pai é pastor, sua madrasta é professora e ela é a mais velha com três irmãos menores. Porém, o mundo como o conhecemos não existe mais. Depois de uma crise ambiental e econômica, sem precedentes, a vida mudou para pior. O caos tomou conta e as pessoas passaram a construir muros em seus bairros para se protegerem de pilhagem e da violência que corria solta. Algumas cidades foram privatizadas, permitindo que empresas estrangeiras comprassem tudo o que quisessem fazendo que as pessoas trabalhassem por comida e um lugar para morar. Além disso, a polícia e os bombeiros cobravam para atender aos chamados.

Ninguém podia confiar em nenhuma instituição e, apesar de políticos ainda existirem, sua credibilidade era quase nula. O país parecia ser gerido pelo caos e não por um poder politico real. Para piorar a situação – porque os humanos sempre conseguem piorar uma situação já ruim -, uma nova droga se alastrava: a Piro. Ao ingerir a droga, os viciados sentiam um verdadeiro prazer em incendiar coisas. Rapidamente, “coisas” também passou a incluir pessoas. Andar armado não era mais uma discussão sobre direitos e, sim, uma necessidade. Sair dos muros do seu bairro poderia significar a morte, roubo ou estupro, ou tudo isso junto.

O valor do dinheiro, neste contexto, era ridículo: mil dólares te valeriam alguma coisa de comida. A água era cobrada em quase todo lugar, tornou-se rara e, quando encontrada, as pessoas deveriam se preocupar com contaminação.

O ambiente é de extrema violência. Ao sair para treinar tiro com seu pai, Lauren e seus colegas encontram corpos humanos abandonados. Muitos já destruídos por cães esfomeados que de melhores amigos passaram para caçadores do homem bem rápido. A fome é uma constante.

Apesar de ser filha do pastor, Lauren começa a questionar muito daquilo que escuta. Sua relação com a religião e com alguma possível divindade ocupa um ponto central do livro que é narrado por ela mesma em formato de diário. Além da religião, ela também começa a questionar a segurança em que vive. Ela acredita que é questão de tempo até que seu bairro seja atacado e os moradores precisam fazer mais do que andarem armados e trancar o portão. E para completar o cenário caótico seu irmão mais novo, de apenas treze anos, foge algumas vezes para fora dos muros e volta como uma pessoa completamente diferente.

Butler nos entrega um distopia poderosa junto com uma historia de amadurecimento violento. Lauren não é apenas uma menina de 15 anos questionando se seus pais estão certos em deixá-la ir para a balada na 6a feira. Ela está questionando a base de tudo aquilo que consiste sua breve vida que já viu mais horrores do que alguém deveria ver a vida toda.

A autora não deixa o leitor escapar ileso. Em muitas cenas, ela acrescenta detalhes que deixam tudo mais macabro e pesado: quando Lauren anda por um bairro destruído, ela nota, entre os mortos, uma menina de uns 7 anos com sangue entre as pernas. Em outro momento, ela vê crianças que não poderiam ter mais de 12 anos assando uma perna humana em uma fogueira: a menina do grupo está grávida. Não existe alento em um mundo em que crianças viram adultos assim que nascem.

Nenhuma lei parece ter força para civilizar o mundo. E, ainda assim, eleições acontecem. Ainda há políticos que esbravejam que podem ajudar, que querem melhorar as coisas. Mas um após o outro, eles se tornam apenas coadjuvantes na história de um país devastado para além da reparação. A história se passa nos Estados Unidos, mas Lauren descobre que muitos outros países enfrentam a mesma situação. Porque o meio ambiente, vejam só, não conhece fronteiras.

Uma única questão que, pessoalmente, fica um pouco solta no livro (mas me parece que será abordado no volume final da duologia) é a certeza com que Lauren rejeita sua religião e rapidamente cria uma própria que ela prega como se fosse a verdade mais verdadeira do mundo. Quando entra no mode “pregadora”, Lauren se torna menos interessante e um pouco mais petulante.

Apesar disso, construção da história combinada com o talento de Butler para a escrita fazem com que “As parábolas do semeador” sejam um livro para devorar a qualquer idade. Leitura rápida, intensa e necessária.

Quando as pessoas passam a achar que não há problema em pegar o que querem e destruir o resto, como saber quando elas vão parar? (pág. 298)

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