Resenha – A praga escarlate
por Patricia
em 20/05/20

Nota:

“A praga escarlate” não é um livro sobre Scarlett Johansson assumindo papéis de minorias em Hollywood (não-ficção), mas uma ficção científica que parece atual demais. Escrito em 1912, o livro é um exercício da imaginação do autor Jack London (mais conhecido por “Caninos Brancos”) sobre o que aconteceria se uma nova praga assaltasse o mundo e dizimasse grande parte da humanidade como já havia acontecido antes.

A historia é contada pelo velho Granser* para seus três netos. Aos 87 anos, ele é a última pessoa viva a lembrar da praga. Foi no ano de 2013, quando a sociedade já havia evoluído muito tecnologicamente e se organizava quase em castas, com a maioria servindo uma minoria em um cenário de escravidão. O trabalho principal dessa maioria escravizada era alimentar o topo da pirâmide econômica-social. E daí, a praga escarlate chegou proveniente de um germe que mal se podia ver sem um telescópio ultra avançado. O sistema que existia colapsou “feito espuma” e ninguém pôde fazer nada para evitar.

Granser, então um professor de Literatura da Universidade de Berkeley em São Francisco, tinha 27 anos quando a praga chegou. As primeiras notícias falavam de um surto em Nova York (do outro lado do país) e o número de mortos ainda era baixo. Porém, uma vez contraída a praga, as pessoas morriam muito rápido, em questão de horas, depois de ficarem com o corpo vermelho como sangue. Uma semana depois, chegaram notícias de casos em Chicago. Pouco depois, descobriu-se que Londres já estava lutando com a praga havia duas semanas mas estavam censurados reportes das mortes. A praga parecia incontrolável porque uma vez morto, o corpo se decompunha com uma rapidez impressionante, a olhos vistos, liberando os germes para suas próximas vítimas.

Além de ser a última pessoa viva a lembrar da praga, Granser é, talvez, a última pessoa educada do mundo. Além do desaparecimento da tecnologia que uma vez existiu, até mesmo a língua havia se reduzido a um falar quebrado e de vocabulário pequeno. Seus netos já não reconheciam palavras como educação, civilização e sociedade, por exemplo, e também não sabem contar.

A sociedade havia voltado a se organizar em tribos e a dividir o espaço com animais selvagens que agora podiam ser vistos andando por aí em cidades que antes continham milhões de habitantes. As pessoas se defendiam desses animais com armas rudimentares como pedras e estilingues feitos de madeira e para se alimentar tinham que caçar.

Ao contar a história do começo da praga, Granser demonstra que a barbárie se instalou tão rápido quanto o germe se movia.

“E eu sabia, agora, porque eu via as pessoas fugirem furtivamente e pálidas. No meio de nossa civilização, em nossas favelas e guetos de trabalho, havíamos criado uma raça de bárbaros, selvagens; e agora, no meio da calamidade, eles se voltaram contra nós como as bestas selvagens que e nos destruíram.” [pág 38 – tradução livre]

O livro não é uma distopia no sentido de mostrar uma sociedade destruída. Funciona mais como uma narrativa simples e direta sobre derrocada da sociedade mais avançada do mundo até então. Não há grandes reviravoltas e nem uma necessidade de explicar muito o que aconteceu.

O biologista vencedor do Nobel, Joshua Lederberg, disse que a maior ameaça ao domínio do homem no mundo, é o vírus. Se você olhar pela sua janela agora, assistir o jornal, ver o gráfico de mortos pelo coronavírus subindo dia após dia, sabemos o quanto isso é verdade.

Há um tom de pessimismo em “A praga escarlate”, mas que não pode ser oprimido pela evolução. O próprio Granser sabe que em algumas centenas de anos o mundo estará como ele conheceu (ou algo assim) porque a evolução é inevitável.

Uma leitura rápida com uma boa construção narrativa. Assustadora, mas necessária.

*Nome dos personagens na edição em inglês.

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