Resenha – A resistência
por Patricia
em 06/02/17

Nota:

 

Família é um tema relativamente comum na literatura. Por ser, até certo ponto, uma questão comum à grande maioria das pessoas, o tema em si já rende uma ligação instantânea entre leitor e obra. A ligação fraterna é, também, tema que aparece com certa constância na literatura.

Em “A verdadeira vida de Sebastian Knight”, lançado originalmente em 1941, Nabokov narra a história do irmão de Sebastian Knight que busca conhecer e remediar um relacionamento torto que parece ter existido entre eles. Falei sobre o livro em 2013 aqui no Poderoso (sim, este humilde blog é antiguinho). No livro, que segue um estilo bem nabokoviano de narração em primeira pessoal e estilo confessional , o irmão de Knight – cujo nome não sabemos –  busca conhecer tudo sobre Knight anterior à sua morte. O livro trata da culpa de um irmão que deixou o outro de lado (ou foi deixado de lado?) e a busca de uma idéia de fraternidade que talvez nunca tenha existido realmente. É um livro denso e que ainda assim nos entrega uma história difícil de largar.

“A resistência”, livro mais recente do autor Julián Fuks, tal qual a obra de Nabokov supracitada, é um livro difícil de resumir ou de explicar. O cerne dele trata, também, do tema família. O irmão teve uma relação conturbada com a família adotiva. O narrador, aqui também chamado de Sebastian, vai além e nos mostra também seu próprio desconforto com a história do irmão, ou ainda, em lidar com a reação do irmão à família. Há grandes similaridades na narrativa de ambas as obras – a narração em primeira pessoa e a busca por algo que não se sabe bem definir. Porém, Fuks acrescenta um tom de “autoficção” – ele dedica as páginas da obra a retratar a história de seus pais – refugiados no Brasil provenientes de uma Argentina sob ditadura – e seu irmão adotivo, mas o leitor não sabe se essa é a história do autor mesmo, se é uma romantização com traços verossímeis ou uma deturpação proposital da história.

De fato, tudo o que sabemos é a percepção e análise do narrador sobre os acontecimentos familiares. Tal como o irmão de Knight, o Sebastian de “A resistência” parece tentar, através de suas memórias e da busca pela “verdade”, entender e se redimir perante seu irmão. Se redimir do quê, nunca parece muito claro. Talvez de tudo. Talvez de uma vida de distanciamento. Talvez de nada específico além de uma sensação de dever. Além disso, o autor parece buscar na história de sua família não apenas explicações como também um senso de pertencimento que seja real e puro. Ou talvez quem buscasse isso era seu irmão e o sentimento era tão forte que se esparrama por toda a família.

Por todas essas questões, não espere grandes reviravoltas ou surpresas novelescas – a ideia não é essa. Por vezes o autor parece que está mais em um monólogo consigo mesmo do que narrando uma história – como se ele ainda estivesse amadurecendo em sua própria cabeça o que pretende contar. Tudo isso alinhado a capítulos curtos rendem uma leitura relativamente rápida ao mesmo tempo que impactante.

O título do livro parece ter inúmeros sentidos que o próprio autor nos apresenta: ao decidirem adotar uma criança ou terem um filho, os pais estavam estabelecendo sua resistência contra um regime assassino; a criança adotada que resiste a fazer parte da nova família; a família que resiste em aceitar o que parece claro sobre essa criança.

O livro ganhou uma pancada de prêmios em 2016 – inclusive o Jabuti de Livro do ano. É compreensível o motivo. Fuks escreve de maneira muito poética, entregue totalmente às palavras, usando-as para criar momentos expressivos em que, paradoxalmente, quase nada acontece. Seus devaneios e memórias podem causar desconforto em leitores acostumados a livros recheados de ação e surpresas. O que “A resistência” nos entrega é uma visão daquilo que muitas pessoas guardam na parte mais profunda de si mesmas; aquilo que muitos nunca comentarão com ninguém: a dúvida constante do pertencimento.

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O livro foi enviado pela editora. 

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