Resenha – A terra inabitável
por Patricia
em 08/01/20

Nota:

“Muitos enxergam no aquecimento global uma espécie de dívida moral e econômica, acumulada desde o início da Revolução Industrial, e acham que agora a conta chegou, depois de vários séculos. Na verdade, mais da metade do carbono dissipado na atmosfera à queima de combustíveis fósseis foi emitido apenas nas últimas 3 décadas.” (pág. 12)

Acredito que já vale avisar logo no começo que esta resenha (e este livro) não é para os “negacionistas” da crise ambiental na qual vivemos. Portanto, siga em frente a seu próprio risco.

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David Wallace-Wells é um cara comum. Um jornalista americano competente que gosta do seu churrasco, seu carro e sua vida na cidade. Ele também acompanha de perto a conversa sobre mudanças climáticas, mas sempre acreditou que a “ciência daria um jeito”. Foi lendo e estudando o assunto que ele entendeu que talvez os cientistas não sejam necessariamente os heróis que nos salvarão. Porque a salvação se torna cada vez mais improvável.

É para mostrar esse ponto que ele começou a escrever sobre a crise climática na aclamada New York Magazine. Em 2017, ele escreveu um ensaio intitulado “A terra inabitável” em que dava uma prévia do que nos espera. O artigo fez tanto sucesso que evoluiu para o livro.

O livro é organizado em 4 partes, mas 3 nos interessam principalmente. A primeira é um apanhado de dados e uma contextualização do momento em que estamos.

O 1° capítulo é destinado a nos dar o tom do que estamos enfrentando. Partindo de “é pior, muito pior do que você imagina”, o jornalista nos apresenta a dados assustadores sobre a situação atual do planeta e as expectativas pouco animadoras para o futuro. Em 100 anos, talvez a extinção humana já tenha se concretizado. Os dados são acachapantes e, na página 40, eu já estava pronta para começar a me despedir da família e amigos.

…a morte por calor está entre os castigos mais cruéis para o corpo humano, e é tão dolorosa e desorientadora quanto a hipotermia. Primeiro, vem a “exaustão pelo calor”, na maior parte um sinal de desidratação, suor profuso, náuseas, dor de cabeça. Após determinado ponto, porém, a água não ajuda, e a temperatura interna sobe à medida que o corpo manda o sangue para a superfície da pele, tentando desesperadamente resfriá-lo. A pele normalmente fica avermelhada, os órgãos internos começam a falhar. No fim, paramos de suar. O cérebro também para de funcionar direito e, às vezes, após um período de agitação e combatividade , o episódio é interrompido por um ataque cardíaco fatal. [pág. 66]

A 2ª parte tem 12 capítulos, cada um dedicado a um dos principais problemas que enfrentaremos com o aquecimento da Terra: fome, alagamento, incêndios florestais, desastres não naturais, esgotamento da água doce, morte dos oceanos, ar irrespirável, pragas do aquecimento, colapso econômico, conflitos climáticos…

Algo extremamente relevante que o jornalista consegue nesse parte é nos dar uma visão muito mais abrangente dos problemas que JÁ enfrentamos graças à crise climática. Quando 700 pessoas morrem por dia só na Índia de calor, por exemplo, em algum momento isso se torna “banal” e deixa de ser notícia. Além disso, não temos acesso fácil a notícia sobre outros países que possam passar por um problema similar. Ler uma lista completa do que acontece em vários lugares diferentes do mundo em um único dia, é assustador.

Parágrafo após parágrafo Wallace-Wells cita números e mais números que, possivelmente, raras vezes foram vistos juntos criando uma imagem muito mais densa. E se cada pessoa pode tentar fazer a diferença, há algumas que podem causar muito mais dano.

Hoje, as árvores da Amazônia ficam com um quarto de todo o carbono absorvido por ano pelas florestas do planeta. Mas em 2018, o presidente eleito Jair Bolsonaro prometeu abrir a selva tropical para o desenvolvimento – ou seja, para o desflorestamento. Quanto estrago uma só pessoa consegue causar ao planeta? (pág. 97)

A 3ª parte, porém, toma um rumo diferente. O autor resolve mostrar as narrativas criadas em torno da crise climática e todo mundo leva sua dose de culpa. Desde os cientistas que, na década de 80, anunciaram a crise e depois, quando perceberam que nada seria feito, baixaram o tom; passando por Hollywood que de tantos vilões, ainda não apresentou a mudança climática com o efeito real que terá, até o capitalismo e seu papel no que vemos hoje nos nossos oceanos e no ar, e nossas leis que foram criadas pensando em preservar grandes corporações que causam parte dos problemas.

A tecnologia, considerada por muitos a salvação do planeta, não está tão avançada quanto imaginamos. Além disso, ela não é distribuída de maneira igualitária – colocando na mão de poucos as chances de efetivamente buscar uma inovação que nos ajude. E nem os “consumidores conscientes” escapam:

…consumo consciente e bem-estar são ambos pretextos, derivados da promessa básica do neoliberalismo: de que as escolhas do consumidor podem substituir a ação política, associando identidade a virtude política; de que o objetivo final mútuo das forças de mercado e das forças políticas deveria ser a aposentadoria efetiva das políticas contenciosas trazidas pelo consenso do mercado, algo que substituiria a disputa ideológica; e que, nesse ínterim, entre as gôndolas do supermercado ou as prateleiras das lojas de departamentos, podemos fazer bem ao mundo simplesmente comprando certo. (pág. 230)

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A leitura pode ser arrastada justamente por tudo o que apresenta. Em dado momento, a catástrofe iminente a qual nos caminhamos parece inevitável. Com a extensa pesquisa que o autor fez, há dados que são repetidos diversas vezes em capítulos diferentes. Quase como se os capítulos fossem ensaios independentes e não fizeram uma revisão geral. Isso não tira o mérito do livro, só atrapalha um pouco a experiência de quem vai ler vários capítulos de uma vez.

A leitura é importante e o momento é oportuno, mas aviso que também se deve estar preparadx para encarar uma realidade difícil e um futuro obscuro.

A redução global dos recursos econômicos seria permanente e, por ser permanente, em pouco tempo nem a veríamos mais como privação, apenas como a brutal normalidade contra a qual poderemos medir minúsculos arrotos de crescimento de pontos decimais como se fossem o sopro de uma nova prosperidade. Nos habituamos a reveses em nossa marca errática pelo arco da história econômica, mas sabemos que não passam de adversidades e esperamos por recuperações elásticas. o que a mudança climática nos reserva não é esse tipo de coisa – não uma Grande Recessão ou uma Grande Depressão, mas, em termos econômicos, uma Grande Extinção. (pág. 146)

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O livro foi enviado pela editora

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