Resenha – A Vegetariana
por Juliana Costa Cunha
em 11/02/19

Nota:

Han Kang ganhou o Man Booker International Prize com seu livro A Vegetariana. O livro tornou-se Best Seller e foi lançado no Brasil, em agosto de 2018, pela Editora Todavia. Imediatamente virou um dos livros mais comentados nas redes sociais dos livros. Todas queriam ler. A imensa maioria gostou ou amou o livro. E eu fui fisgada por todo esse alvoroço.

Eu gosto de pesquisar sobre as obras que leio e quem as escreve. Nesse caso, sendo a autora uma Sul Coreana, a curiosidade foi maior ainda, pois temos (ou eu tenho) pouco acesso e conhecimento da cultura oriental. Daí que descobri que a autora é filha de escritores e A Vegetariana é desdobramento de um conto publicado em 97 pela autora, intitulado “O Fruto da Minha Mulher”. Nele, uma mulher também vai se tornando planta.

Em A Vegetariana conhecemos Yieonghye, personagem principal da história, mulher casada e sem filho, com um trabalho comum e que cuida da casa e do marido conforme os costumes da sociedade local. Aliás, este foi um dos requisitos vistos por seu marido para que ela pudesse tornar-se sua esposa.

Embora toda a história do livro nos narre a vida de Yieonghye, em nenhuma das três partes dele é ela quem nos conta o que vai lhe ocorrendo. Assim temos três variáveis narrativas: a do marido, que a toma como louca; a do cunhado, que passa a desejar Yieonghye fisicamente; e a de sua irmã, que até tem empatia por ela e o que lhe ocorre, mas que deseja que ela volte a ser o que era.

E tudo isso por quê? Yieonghye, em determinada manhã, acorda de um sonho e decide não comer mais carne. Decide que será vegetariana e, com isso, acredita, poderá se tornar uma árvore.

A partir deste sonho acompanhamos a transformação de Yieonghye, através do olhar desses três personagens. E nos deparamos com uma mulher que, tendo decidido ser vegetariana, não abre mão disso. Porém, a meu ver, o vegetarianismo não é o foco principal da história criada por Han Kang. Ele não é o motivo, mas uma consequência. É a forma que Yieonghye encontra para dizer basta. Para dizer que não aceita mais as regras que lhes são impostas, nem os mandos do marido, da família e nem da sociedade.

Ela para de comer proteína animal, depois passa a não querer mais usar roupas, a sentir necessidade de tomar banho de sol como se fosse um processo de fotossíntese e, por fim, deseja tornar-se árvore. Para mim não é um livro que deva ser lido de forma literal. O que está nas entrelinhas é o que fala mais alto. Tornar-se árvore, não seria a morte da personagem, mas, pelo contrário, seu renascimento. Um renascimento livre de todas as opressões já vivenciadas. E um renascimento com outras possibilidades de vivenciar a experiência da vida.

A autora faz uso do realismo fantástico e de diversas metáforas. A questão da loucura também é um dos panos de fundo dessa história. Será Yieonghye uma mulher que tem sua saúde mental comprometida pela esquizofrenia? Ou será que tornar a personagem louca é parte do processo de negação da sociedade, por ser Yieonghye alguém que decide não cumprir mais suas regras?

Os personagens masculinos deste livro, dariam uma resenha à parte… O marido de Yieonghye me causou náuseas. E a irmã dela? Aquela mulher que é bem sucedida na vida; empresária, ela banca a casa pois o marido é artista e tem um filho, cumprindo seu papel de mulher. Porém… vive uma vida amarga e sabe disso, mas não consegue romper com isso.

A última parte do livro, que é narrada por ela, é (para mim) tocante. É quando vamos sabendo de algumas situações da infância da Vegetariana e de sua irmã. Percebemos que ela compreende os motivos da irmã em se negar àquela vida, mas ela não consegue fazer o mesmo com a sua (embora de alguma forma tenha tentado). E com isso, deseja que a irmã volte ao “normal” para que tudo volte ao “normal”.

Na minha opinião, um livraço! Que rende muitas e muitas discussões. E que deve provocar muito mais empatia no público feminino.

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Livro enviado pela editora Todavia

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