Resenha – A verdadeira vida de Sebastian Knight
por Patricia
em 07/01/13

Nota:

Oh, esse livro! Eu adoro uma história em que a premissa não se pareça com nada que eu tenha lido antes ou que tenha elementos que são originais e inesperados. Com Nabokov, essas coisas são quase obrigatórias. Quem leu Lolita sabe do que eu estou falando.

“A verdadeira vida de Sebastian Knight” é narrado pelo meio irmão de Sebastian Knight. A verdade é que Knight foi algo como uma celebridade européia em seu tempo – um autor considerado genial por muitos. Goodman – ex assistente do autor – publicou uma biografia de Knight mas, de acordo com seu meio irmão, o livro continha muitos erros. Ainda assim, a biografia foi bem recebida pela crítica. Durante a leitura, o meio irmão de Knight desconstrói alguns pontos da biografia “fajuta” publicada e vai elucidando outros.

Apesar de serem irmãos, eles não eram muito próximos e a tentativa de recontar a vida de seu meio irmão famoso é, também, uma busca por conhecê-lo. Durante essa busca, temos trechos dos livros de Knight – uma história dentro da história – algo que é feito de maneira fantástica por Nabokov e em nenhum momento fica confuso. Esse é um dos maiores talentos de Nabokov quando ele escreve: cada palavra, cada vírgula está no lugar certo e a frase que se completa parece ser primordial para compreender o livro todo. É espetacular!

A falta de aproximação dos irmãos faz com que essas citações sejam um meio para entender as atitudes, reconhecer a personalidade e aproximar-se de Knight. Quando cita momentos de encontros entre os dois, notamos que a relação é vazia de um dos lados e cheia de admiração do outro.

O meio irmão de Sebastian não tem nome. Em momento nenhum do livro sabemos quem ele é…como se sua identidade estivesse amarrada totalmente ao seu meio irmão. A reverência que ele tem pelo irmão morto é forte. Aliás, ele próprio tomou um curso para se tornar escritor só para poder narrar a história de seu irmão da “maneira certa”.

Sua busca pela “verdadeira história de Knight” o leva a diversos países e ele bate em várias portas. Seu irmão era um completo mistério para ele e dá para sentir a dor que isso acarreta quando ele nos comenta o quanto de sua própria vida está abrindo mão para buscar conhecer um irmão que não existe mais. O seu desespero em encontrar fontes de informação, de vez em quando, aparece claramente como nessa amostra grátis:

“Ou então teria que recorrer a um método mais ousado, uma observação direta. ‘É, eu sei como você deve se sentir a respeito, mas por favor, por favor, converse comigo sobre ele. Pela imagem dele. Pelas pequenas coisas que vão se dissipar e perecer se você se recusar a me dar essas coisas para o livro dele.’ Ah, eu tenho certeza de que ela nunca teria recusado”.

Nesse desespero insano por conhecer seu irmão, entendemos que o livro todo foi concebido para aplacar talvez o pior sentimento de todos: a culpa. A sensação de que havia muito a ser dito, coisas a serem feitas, livros a serem lidos e tudo ficou naquele limbo silencioso quando Knight morreu.

O livro tem uma estrutura similar a Lolita (que é um depoimento a um júri) – o livro não é apenas uma narrativa simples…é uma história narrada das lembranças do autor. Por isso, depois de um certo tempo, é difícil saber o que é verdade e o que é mentira e acabamos perdidos no mundo criado por Nabokov. Aliás, é até mesmo difícil formar uma opinião sobre o autor da biografia e o autor biografado. Os mundos se confudem de maneira belíssima.

Eu achava difícil acreditar que um autor pudesse escrever várias obras-primas. Aos poucos vou aprendendo que isso não é tão difícil assim para quem é autor de verdade) mas Nabokov é um desses autores que foram brindados com uma imaginação que transforma a realidade em palavras certeiras. Dizer que ler qualquer coisa dele vale a pena é pouco.

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