Resenha – A vida como ela é
por Thiago
em 18/06/14

Nota:

images vida como ela é

Eu o achava charmoso em sua máquina de escrever e cigarro nas mãos, admirava sua ironia e visão da sociedade brasileira, me encantava como ele a retratava. Sim, ele era meu herói de adolescência, mais que isso, eu queria ser Nelson Rodrigues; queria ser um dramaturgo, cronista e contista assim como ele. E assim começo meu desafio do tigre sobre  meu autor preferido e como estamos no mês de literatura nacional aqui no Poderoso, juntei uma coisa com  a outra e deu nisso.

Em relação a outros autores preferidos nacionais e internacionais poderia citar Tolkien, Ken Follet, Edgar Morin, Eduardo Galeano, Rui Castro, Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Paulo Freire, Ariano Suassuna e por ai vai.

A partir dele, me apaixonei pela leitura de peças teatrais e de crônicas, mas como em outro momento já falei sobre uma peça, hoje quero falar da sua obra de contos “A vida como ela é”. O livro é simplesmente uma coletânea de sua coluna de mesmo nome no jornal carioca “A última hora” entre os anos de 1951 a 1962, onde todo dia escrevia.

Os textos versam sempre da vida realmente como ela é, sem cinderela ou príncipes encantados, sem fadas madrinhas e nada do mundo dos contos de fadas. Baseado na observação do cotidiano, de toda lama do ser humano, junto com casos que ouvia, criava na sua mente bizarra histórias que a primeira vista poderiam soar malucas, mas a gente consegue sentir a realidade nela de um modo que chega a incomodar. Assim, numa mistura que versa entre casamento, traição, sexo, desejo, tesão, falso moralismo, malandragem, paixão, morte e sempre relacionamentos extra conjugais o anjo pornográfico fez esses textos.

nelson-rodrigues

Agora vamos aos detalhes, em primeiro momento Nelson Rodrigues não é um autor de fácil leitura, não que use uma linguagem rebuscada, pelo contrário, mas pela sua escatologia, pelo erotismo, pela pornografia e por mostrar todo lado humano que não gostamos de admitir como nosso, toda aquela parte que a moral judaico-cristã condena e tenta ignorar. Por muito tempo foi considerado um autor menor na literatura brasileira, mas suas peças foram ganhando espaço novamente, livros cobrados em vestibulares, mini séries meia boca na tv (teve uma que passava na Globo narrada pelo José Wilker, era uma versão limpinha dele, afinal era tv aberta, mas a narração era muito legal).

Outro elemento que torna complicada a leitura destes livros de coletâneas de seus escritos no jornal é o fato da semelhança entre os textos, afinal ele escrevia todo dia, vocês imaginam o que é contar algo mais ou menos real todo santo dia? Há então alguns elementos que passeiam por seu universo, primeiro o contexto, que obviamente é o Rio de Janeiro da década de 50, dentro deste cenário temos sua fauna típica, composta pelo malandro carioca, a elite moralista, a elite falso moralista, o clima de praia e desejo carnal, a brincadeira com o pecado e a virtude, enfim, todo aquele cair de máscaras social e tudo bem sempre passional, bem latino, aquela coisa apimentada, extrema, atitudes de rompante. Lembre-se Nelson era um dramaturgo, acostumado com a necessidade do conflito para alavancar suas histórias e isso é presente em todos seus textos, de teatro ou não. Nossa, e como gostava de conflito.

Você também encontrará termos e referências bem datadas do Rio da década de 50, mas nada muito complicado de entender, como ele mesmo gostava de dizer em seus escritos “é batata”.

Então, pra quem quiser chafurdar na lama que é o universo do Seu Nelson fica ai minha dica pra um livro que já diz muito pelo próprio título, “A vida como ela é”, aquele realismo escroto que passa uma rasteira nas suas ilusões. Nelson Rodrigues te conta que Papai Noel e coelhinho da Páscoa não existem e mija naquele mundo lindo que a Disney criou pra você, Nelson acaba com sua infância. Melhor dizendo então, não leia Nelson Rodrigues, não faça isso com você, fique no seu mundo comodo, no seu cenário de novela onde a bela adormecida ainda espera pelo beijo do seu príncipe.

Caso queira ler é por sua conta e risco, vai que você gosta.

Boa leitura  a todos.

Desafio

Obs: segue aqui um vídeo da série da Globo

Agora só um vídeo ilustrativo sobre como a vida é ou sobre a vida como ela é

 

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2 Comentários em “Resenha – A vida como ela é”


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Juan Silva em 24.06.2014 às 21:43 Responder

Adoro Nelson Rodrigues e tudo o que ele escreve. Ele consegue ser bem cru e nacionalista, expondo exatamente aquilo que a família brasileira é.

Abraços,
Juan Silva – http://asasliterarias.com/

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Thiago em 25.06.2014 às 06:32 Responder

O cara era gênio!!!


 

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