Resenha – A vida imortal de Henrietta Lacks
por Patricia
em 17/06/19

Sabia muito pouco sobre Henrietta Lacks quando peguei este livro para ler. Minha surpresa foi que logo na introdução, a autora, Rebecca Skloot, explica que foi muito difícil descobrir mais sobre Lacks. Para nos contar essa história, ela passou uma década falando com “laboratórios científicos, hospitais e instituições psiquiátricas, com um elenco de personagens que incluiria vencedores do prêmio do Nobel, balconistas de mercearias, delinquentes condenados e um vigarista profissional.” Meu interesse estava atiçado.

Nascida no sul dos Estados Unidos, Henrietta teve sua primeira filha aos 14 anos. Descendente de escravos, sua mãe morreu no parte do 10º filho. As crianças foram separadas e Henrietta foi criada pelo avô, na plantação de tabaco com outros primos que ele criava para seus outros filhos(as). Ela cresceu próxima de David Lacks, seu primo, e aos 20 anos, eles se casaram.

Aos 29 anos, após dar à luz a seu quinto filho, Henrietta Lacks notou um sangramento forte fora de época. Como o resultado foi negativo para sífilis, ela foi ao hospital John Hopkins, construído para um público pobre, sendo a maioria de negros que não podiam pagar por consultas particulares. Era o único em um raio de quilômetros que tratava pacientes negros. “Aquela era a época das leis segregacionistas Jim Crow – se negros aparecessem em hospitais de brancos, costumavam ser mandados embora, ainda que isso significasse que eles poderiam morrer no estacionamento.” 

Como colhedora de tabaco e de origem humilde, Lacks não era adepta a ir a médicos. Ela sentiu uma dor de dente constante por cinco anos antes de ir a um dentista para arrancá-lo (junto com outros). Com uma escolaridade baixa, ela mal lia e escrevia e só aceitava ver um médico quando não sabia mais o que fazer e o “deixar para lá” não dava mais certo. No hospital, confirmaram que Lacks tinha um tumor no útero. Como ela tinha dado a luz apenas quatro meses antes e nenhum dos médicos no parto notaram algo errado, o médico concluiu que aquele caroço havia crescido a uma “velocidade assustadora”.

Seu diagnóstico veio em uma fase de muita discussão sobre o câncer, principalmente o cervical.

“Àquela altura, morriam de câncer cervical mais de 15 mil mulheres por ano. O teste de Papanicolau tinha o potencial de reduzir essa taxa de morte em 70% ou mais, mas havia dois obstáculos: primeiro, muitas mulheres – como Henrietta – simplesmente não tinham acesso ao teste; e segundo, mesmo quando tinham, poucos médicos sabiam interpretar precisamente os resultados; por ignorarem o aspecto dos diferentes estágios do câncer cervical sob um microscópio. Alguns confundiam infecções cervicais com câncer e removiam todo o aparelho reprodutivo da mulher, quando tudo de que ela precisava eram antibióticos. Outros confundiam alterações malignas como infecção, mandando as mulheres de volta para casa com antibióticos e recebendo-as mais tarde já com metástase.”

Por isso, muitos médicos buscavam maneiras de pesquisar o câncer. Graças às regras de segregação, os médicos (brancos) acreditavam que por cederem tratamento gratuito a negros pobres, não precisavam de suas autorizações para retirar células e amostras de seus corpos. As células de Henrietta, eles descobriram, sobreviveram e multiplicaram-se quando todas as outras morreram. Era exatamente o que eles precisavam para avançar suas pesquisas.

Foi assim que as células de Henrietta (chamadas de HeLa) rodaram o mundo antes da família sequer saber o que tinha acontecido. No final, Henrietta sofria tanta dor que nem morfina dava conta e chegou ao ponto de um médico tentar injetar álcool puro na espinha – o que também não funcionou. A rapidez com que as células se espalhavam, fazia parecer com que novos tumores surgiam a cada dia.

Skloot, que é jornalista científica, vai e volta no tempo para nos contar a vida de Henrietta e sua família antes e depois do diagnóstico. Os trechos antes do diagnóstico são pura viagem histórica aos Estados Unidos no começo do século e o impacto das guerras na indústria do aço. Os trechos pós-diagnóstico já contém um teor bem maior de biologia para que possamos entender o que, de fato, significam as descobertas baseadas nas células HeLa. Além disso, ela conta também como foi sua busca por informações e a recepção da família à sua proposta de escrever este livro. São quase dois livros diferentes unidos por Henrietta como fio condutor.

Henrietta Lacks morreu na década de 50 e deixou cinco filhos e um marido. Suas células foram a base para a vacina da poliomielite, para estudos contra câncer, alguns vírus e até testes sobre os efeitos da bomba atômica. Além disso, graças a essas células “imortais” também se fez avanços consideráveis em clonagem, fertilização in vitro e mapeamento de genes. Mais de 60 anos após sua morte, as células continuam a se multiplicar e hoje existem mais células de Lacks do que ela jamais produziu enquanto estava viva. Um cientista da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, estima ter cultivado, sozinho, mais de 800 bilhões de células HeLa.

Consequentemente, as células passaram a ter um valor de mercado e foram vendidas em contratos milionários para laboratórios do mundo todo. Porém, a família de Henrietta nunca viu nada desse dinheiro e mal conseguia pagar uma consulta médica. A própria Henrietta, negra e pobre, não soube o que aconteceu com as células retiradas sem seu consentimento de seu corpo.

É nesse impasse que o livro floresce: Lacks se tornou o equivalente humano a um rato de laboratório. Sem identidade, sem autonomia, sem poder de decisão e o fato de ser negra e pobre ressalta o descaso do sistema de saúde com essas pessoas. Sua família só descobriu que suas células continuavam vivas décadas depois de sua morte. Por outro lado, o tecido retirado do seu corpo auxiliou em avanços inimagináveis para a saúde. O que a obra nos permite é entender a gravidade e a importância dessa discussão ainda que estejamos longe de uma conclusão.

Em 2017, a vida de Henrietta e sua filha, Deborah, foi adaptado para o cinema com Oprah no papel de Deborah.

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