Resenha – A vitória de Orwell
por Patricia
em 29/01/18

Nota:

 

George Orwell já passou pelo Poderoso com duas obras – Como morrem os pobres e outros ensaios e com O que é fascismo? e outros ensaios que foi resenhado e revisitado. 

Conhecido por seus ensaios políticos e opiniões firmes além de obras de ficção que se tornaram verdadeiros clássicos, Orwell morreu há 68 anos. Isso significa que ele não viu muitas mudanças cruciais do mundo moderno que conhecemos hoje: o pós-guerra, a guerra fria, a globalização desenfreada, a internet – apesar de ter sido um visionário e “previsto” muitas mudanças e acontecimentos, é difícil pontuar exatamente como ele analisaria o mundo hoje.

O que acontece com figuras como Orwell é que, durante sua vida mas principalmente em sua morte, pessoas podem cooptar suas idéias e usá-las como a interpretação que o momento pede. Trechos de suas obras sem contextualização podem ser usadas para justificar qualquer linha de pensamento. Este parece ter sido um dos principais motivos para os ensaios do livro “A vitória de Orwell” publicado em 2002 por um outro nome conhecido das análises políticas e polêmicas – Christopher Hitchens – que já passou pelo Poderoso com Cartas a um jovem contestador e Hitch-22.

A dicotomia de cada um

Em dois capítulos intitulados Orwell e a esquerda e Orwell e a direita, Hitchens explica bem como a obra do autor tem sido interpretada a bel-prazer de quem a lê. Orwell, como todos nós, aliás, tem posições políticas que podem ser chamadas de liberal ou conservadora – dificilmente uma pessoa segue uma ideologia em seu mais específico detalhe, ou seja, podemos oscilar dependendo do assunto discutido. Orwell, explica Hitchens, às vezes deixava escapar algo contra homossexuais enquanto escrevia textos contundentes contra o stalinismo. Nas palavras de Hitchens:

George Orwell foi conservador em muitas coisas, mas não em política. (pág. 105)

O que Hitchens faz nestes ensaios é demonstrar muito claramente que até mesmo um dos mais influentes analistas políticos e escritores de seu tempo, podem ter opiniões que hoje seriam consideradas retrógradas – algumas dessas em seu tempo mesmo já o eram. E isso não significa que toda sua obra pode ser cooptada por um lado ou por outro e é cada vez mais importante que se entenda o contexto em que cada opinião foi dada.

Orwell teve uma educação típica de classe média inglesa e poderia ter se tornado uma voz a favor do expansionismo inglês muito facilmente. Porém, ele abandonou certos preceitos e tornou-se soldado indo lutar na Birmânia (que resultou na obra Dias na Birmânia) e foi lá que viu um lado desse expansionismo que não teria conhecido de outra maneira. Essa e outras experiências moldaram Orwell tal como funciona com qualquer pessoa. Hitchens comenta diversas vezes que Orwell lutava ativamente contra os preceitos que lhe haviam ensinado a vida toda. Essa é, como para todos nós, uma luta que às vezes ganhamos e às vezes perdemos.

Apesar de uma clara admiração por Orwell, Hitchens não se esquiva de abordar temas que, possivelmente, abririam buracos na imagem de “gênio” em um mundo no qual o politicamente correto está sendo debatido constantemente. No capítulo intitulado Orwell e as feministas: dificuldades com as mulheres, Hitchens demonstra que em muitos de seus escritos, Orwell poderia ser considerado anti-feminista ou, ao menos, pouco favorável às mulheres.

De fato, as mulheres pouco ocupavam os escritos de Orwell. Em suas análises políticas, ele tende a analisar o estado político de um ponto de vista de guerra e bastante inglês – seja contra ou a favor. Mesmo em sua ficção, há diversos exemplos de mulheres fúteis e pouco intelectuais. Não há muito a dizer a favor de Orwell nesta esfera e o próprio Hitchens reconhece isso. Da mesma forma, é impossível dizer se o autor recapitularia e mudaria sua visão sobre as mulheres se estivesse vivo hoje. O que nos resta é analisar o que ele de fato deixou publicado e tentar, ao máximo, entender o contexto no qual foi publicado sem cair na tentação de buscar desculpas ou reescrever o que foi impresso.

“A vitória de Orwell” é um título um tanto pretensioso: Hitchens, em alguns momentos, é bem sarcástico (em um sarcasmo bem ácido) com aqueles que parecem discordar de Orwell (e talvez dele mesmo já que ambos parecem ter opiniões tão similares). É claro pela leitura e pela defesa apaixonada de seu objeto de estudo que Hitchens identifica-se muito com os escritos de Orwell. Mas, claro, isso não significa que tudo o que Orwell escreveu está correto e é difícil de defender as posições homofóbicas e anti-semitas do autor. Porém, é importante ressaltar que seus escritos focavam muito pouco nesses temas (uma indicação de que, talvez, o próprio autor soubesse que não deveria ser algo passivo de publicação ou discussão constante).

É aqui que se amplia a discussão de como uma pessoa não é uma coisa só: nem apenas conservadora, nem apenas liberal ou progressista. Há diversos pontos crucias nos quais as opiniões podem se alterar como um pêndulo – à medida que se aprende mais, podemos mudar de opinião, amadurecer idéias e expandir princípios. Hitchens parece acreditar que isso resume bem Orwell. Dá o que pensar.

A vida de Orwell como escritor foi, em dois importantes sentidos, uma luta constante: primeiro, pelos princípios que ele abraçava e, segundo, pelo direito de depor em favor deles. Orwell parece nunca ter diluído suas opiniões na esperança de ver seu nome difundido entre os clientes pagantes; essa é, em si, uma pista para se compreender por que ele continua relevante. (pág. 15)

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