Resenha – Americanah
por Patricia
em 13/10/15

Nota:

Unknown

No começo desse ano li Bad Feminist de Roxane Gay que e abriu os olhos para diversos aspectos do que eu entendia como feminismo. O principal deles é do ponto de vista branco e cisgênero que eu, automaticamente, partia quando avaliava qualquer situação. Claro que posso entender situações de racismo e casos de assédio. Na resenha do livro de Gay, cito alguns programas que a autora critica abertamente por sua posição quanto a raça. Posição que não percebi quando assisti esses mesmos programas. Foi esse o livro que me abriu a cabeça para tentar entender que nem todas as mulheres experimentam as coisas da mesma maneira; principalmente no que tange raça.

Entra Chimamanda Ngozi Adichie.

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Meu primeiro contato com a autora nigeriana foi com Hibisco Roxo. Gostei muito da obra e me encantei com sua prosa. Logo depois, a Companhia das Letras lançou Americanah. Nessa obra, a autora nos apresenta a Ifemelu e Obinze – jovens nigerianos vivendo sob um governo militar um tanto quanto instável. Obinze é fascinado pela vida nos Estados Unidos e planeja ir para lá assim que puder. Ifemelu é um pouco alheia a esse desejo e não parece ter grandes aspirações para depois que se formar.

Eles se separam quando Ifemelu consegue uma oportunidade de ir para os Estados Unidos. Apesar de tentarem manter contato e continuar o relacionamento mesmo à distância, a vida tem algumas curvas que nem sempre podemos prever. Ifemelu também enfrentará opções menos que agradáveis em seu caminho até conseguir uma oportunidade que vai lhe proporcionar estabilidade econômica e permitir que avance em seus estudos e em sua nova vida.

Obinze tem um destino totalmente diferente e acaba tentando a vida na Inglaterra até ser deportado de volta para a Nigéria onde ganha a vida e, rapidamente, torna-se milionário.

Nos Estados Unidos, Ifemelu cria um blog dedicado a analisar o sonho americano, pode-se dizer, sob um outro prisma. Através de seus posts, Ifemelu nos apresenta de maneira muito clara e sem perdão sua visão da cultura norte-americana dos pontos de vista de uma negra não-americana.

E enquanto o teor de romance do livro poderia levar muitos a descrevê-lo apenas como uma história de amor, a objetividade de Ifemelu em tratar o tema de raça é tão cristalina que Adichie consegue acrescentar aqui um pequeno detalhe que dá um peso incrível à obra toda. Em nenhum momento da leitura você esquece que Ifemelu e Obinze são negros. A autora faz questão de apontar isso em cenas muito leves. Porque o mundo também não os deixa esquecer que são negros, a menos que estejam em seu próprio ambiente – a Nigéria.

E o que Chimamanda Adichie criou foi um livro que não nos deixa fingir que isso não é óbvio. Você não vai ler esse livro e tentar imaginar Ifemelu como branca/mulata/parda/de cabelo liso/maquiada, o que seja, para que ela fique mais parecida com você. E, ainda assim, é possível se identificar muito com suas percepções de mundo criando um elo de empatia entre leitor e protagonista. É uma maneira genial de colocar o debate no centro da mesa e evitar que seja ignorado.

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Um outro livro que aborda o mesmo tema e que também li esse ano foi A marca humana do incrível Philip Roth. O autor nos apresenta a um professor universitário que se aproveitou de sua pele negra bem clara para se passar por branco por toda sua vida – utilizando-se das vantagens óbvias de não ser negro na década de 60 nos Estados Unidos.

Há algumas diferenças – o tema da raça no livro de Roth é apresentado através de um estopim causado por terceiros. Ao longo da história vamos compreender melhor o quanto o tema é de fato relevante – muito mais do que parece à primeira vista. Em Americanah, porém, ele nunca sai de voga e está sempre no centro do discurso e é introduzido logo no início.

São duas obras que abordam raça de maneiras diferentes mas que, no fim, tratam quase da mesma coisa: o quanto a cor da pele tem mais a ver com uma construção social e com a narrativa de poder do que qualquer outra coisa. E enquanto Coleman Silk se recusa a abrir mão de seus novos privilégios guardando seu segredo até o túmulo, Ifemelu – que não pode fugir de seu próprio tom de pele – está disposta a abrir o debate e escancarar suas opiniões sem pedir desculpas a ninguém.

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Americanah não segue um padrão linear. Dividido em partes, o livro vai e volta no tempo para nos mostrar o que aconteceu tanto com Ifemelu quanto com Obinze no passado e elevando a expectativa para o presente – quando ela decide retornar para a Nigéria.  Até lá, acompanhamos Ifemelu observando algumas mudanças nos Estados Unidos. O enredo sobre a eleição de Obama é belíssimo. Ali, notamos o quão importante o momento foi para a comunidade negra. O apoio e fé que Obama inspirou foram tão profundos que reviveram forças que haviam sido esquecidas desde a década do movimento civil negro: a união nunca perde a força e, de fato, é o ingrediente principal para mudanças.

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Se é verdade que a leitura pode inspirar a empatia, Adichie seria um excelente caso de estudo. Claro que não se inspira quem não está aberto a questionar tudo o que já conhece, mas com esse passo do leitor, a experiência de ler Americanah pode ser reveladora. Não apenas rendendo uma leitura completa como romance, mas indo além e permitindo que o leitor sinta e perceba pontos completamente diferentes sobre a vida comum.

Tudo o que você espera de um romance está aqui: personagens bem construídos, com arcos completos e enredos bem definidos que vão se completando à medida que viram-se as páginas.

Calhamaço de respeito, digno de todas as doses de café possíveis.

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