Resenha – Ana de Amsterdam
por Patricia
em 16/01/17

Nota:

 

Desde 2015, o mundo tem visto uma onda de personalidades que se transformam de virtuais em celebridades da vida real. Vimos isso, mais recentemente, com Youtubers fazendo o famoso cross-over e vindo para o mundo das telonas ou lançando livros sobre nada, mas que venderam muito. Influenciadores aparecem todos os dias e promovem de produtos de ginástica a textos aleatórios no Facebook.

Ana Cássia Rebelo é advogada, mãe e esposa de dia e escreve textos autorais em seu blog homônimo nas horas vagas – blog, aliás, que ela continua atualizando.  Em seu espaço virtual, Rebelo escreve sobre sua vida e, principalmente, sobre seus demônios. Rebelo retrata sua batalha diária contra a depressão e o processo de viver em um mundo que não compreende sua doença.

Ana de Amsterdam, o livro, foi lançado no primeiro semestre de 2016 com postagens escolhidas pelo crítico português João Pedro George que também assina o prefácio. Organizado como um diário – ou como as postagens de um blog – os textos nos permitem acompanhar Ana em sua jornada pelos questionamentos da depressão (incluindo idéias de suicídio), as realizações do dia a dia e até divagações que a autora desenvolve para pessoas aleatórias. Moçambicana de nascença, portuguesa de vivência, entre seus textos Rebelo também aborda o pertencimento ou o efeito da falta dele.

Rebelo carrega o leitor por seus pensamentos mais profundos e, em vários momentos, o resultado é triste. A escrita da autora é pura e ela não tenta se esconder por trás daquilo que não sente criando cenas alegres ou simulando uma felicidade que não é real apenas para amenizar o tom da obra. Mesmo quando cria ou reconta histórias para outras pessoas, elas não são as típicas histórias felizes.

A dureza da vida em Londres fez com que o seu amor acabasse. Acontece muitas vezes. Só nos livros e nos filmes é que o amor vence montanhas, ultrapassa dificuldades, é enorme, belo e eterno, como um diamante. Na vida real, o amor não tem essa grandeza nem esse brilho. Esgota-se. O amor vale pouco.

É através desse prisma de depressão e tristeza generalizada que a autora vai analisar o mundo e as pessoas incluindo questões como sexo, ser mulher, envelhecer e literatura, por exemplo. O resultado, portanto, não poderia ser outro se não um livro denso que exige um certo preparo emocional do leitor. Essa exigência pode ser um divisor entre alguém que gostará do livro ou não: para alguns poderá ser pesado demais, para outros nem tanto. Apesar disso, a escrita de Rebelo é muito bonita, poética e cuidadosa.

O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se um vício. Percebo bem o que queria dizer. Sou depressiva há muitos anos, mais de vinte, e não sei como me livrar da tristeza quando ela decide tomar conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tomei muitos comprimidos, lamelas e lamelas de comprimidos. Já falei com um padre. Já tive filhos para que a maternidade, me secundarizando, acabasse de vez com a tristeza. Já tentei preencher o tempo com coisinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. Sou de vícios e fraquezas.

Rebelo escancara seu mundo e força o leitor a acompanhá-la ladeira abaixo. Ela é, com certeza, das melhores da safra de autores que saíram do mundo digital.

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