Resenha – As luas de Júpiter
por Patricia
em 05/11/18

Nota:

Em 2013, Alice Munro recebeu o Prêmio Nobel de Literatura tornando-se a 13ª mulher a conquistar o Prêmio (e a primeira autora canadense). O que chamou a atenção em sua vitória é que Munro é conhecida por escrever contos e não romance – gênero que costuma chamar mais a atenção dos jurados do Nobel. Muitos acreditaram que isso significava uma nova fase do Prêmio que olharia para outros estilos de escrita saindo do esperado  – algo que se confirmou em 2015 com a vitória de Svetlana Aleksiévitch, autora de relatos reais com tons jornalísticos; e em 2017 com a vitória do músico Bob Dylan.

Sete livros da autora já foram lançados no Brasil, sendo “As luas de Júpiter” o mais recente, lançado no primeiro semestre de 2018.  Nesta obra, os contos são contados do ponto de vista de mulheres de todo tipo, com muita perspicácia. Alguns trechos são verdadeiras belezas de ler, mostrando o quanto Munro está conectada ao seu tempo.

Naquele tempo, o negócio para o corpo das mulheres parecia ser inchar e amadurecer em um bom tamanho cinquenta e quatro, se esperavam chegar a algum lugar na vida; depois, dependendo da classe e das aspirações, ele poderia ceder e afrouxar, tornar-se trêmulo como pudim sob claros vestidos estampados e aventais úmidos, ou cingir-se em formas cujas curvas finas e aclives orgulhosos nada tinham a ver com sexo, e tudo a ver com direitos e poder. (pág. 9)

Nos doze contos do livro, temos várias temáticas desenvolvidas: família, amor, relacionamento, empoderamento (ou a falta dele), envelhecimento, criação de filhos, solidão são algumas delas. Se essa lista fosse lida sem contexto poderia ser a explicação do conteúdo das páginas de uma revista feminina qualquer, mas é justamente o fato de que Munro utiliza tão bem esses temas que a colocam em outro patamar no universo de contos. Não é a toa que ela já foi comparada com Tcheckóv, reconhecido por ser “o mais ousado transgressor da tradição literária clássica e um importante precursor das formas e da linguagem artística contemporânea”.

Estavam todas com seus trinta e poucos. Idade em que às vezes é difícil admitir que o que você está vivendo é a sua vida. (pág. 106)

Sua impressão é a de que deixou as filhas extraírem a seiva de seu corpo. Vive apaziguado as duas, recolhendo as coisas por onde passam; precisa implorar que arrumem suas camas e limpes seus quartos; ele já a escutou suplicando que recolham a louça suja, para ela lavar. Ou assim soa para ele. Será esse o jeito classe média de criar os filhos? (pág. 186)

Normalmente, leio contos quase como uma forma de “limpar o paladar” entre um livro e outro. Não espero me apegar a nenhum personagem porque, por definição, terei pouco tempo com eles. Mas Munro conseguiu algo que nunca tive mesmo quando li contos de um dos meus autores preferidos, Gabriel Garcia Márquez: eu queria que a historia não terminasse. Os contos variam no número de páginas mas alguns deixam uma sensação tão boa que é difícil de aceitar quando terminam, tal como um romance que você esperava que tivesse 1000 páginas.

Em algum momento do mundo, o autor David Sedaris disse que “um bom conto me tira de mim mesmo e me enche de novo em um tamanho diferente e me deixa desconfortável com o encaixe.” Essa parece ser a especialidade de Munro: jogar um pequeno vislumbre da vida de uma pessoa que parece ser intrigante ou totalmente desinteressante e transformar aquilo em um microcosmo de uma vida em 20, 40, 60 páginas. Alguns autores precisam de sete volumes de 600 páginas para nos fazer gostar de um personagem (ou entender onde a história vai parar). Munro consegue nos apresentar a essência de um personagem com muita rapidez e muita força.

O fato de podermos tirar tanto de um conto prova que Munro é, de fato, uma mestra do gênero.

***

O livro foi enviado pela editora.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – As luas de Júpiter”


 

Comentar