Resenha – As vinhas da ira
por Patricia
em 22/10/18

Nota:

Há uns bons 5 anos (sim, o Poderoso está por aqui há algum tempo já) li e resenhei Ratos e Homens, uma das obras mais conhecidas de John Steinbeck. Porém, para muitos, sua obra prima é “As vinhas da ira”. Lançado em 1939 o livro dividiu críticos – levou o Pulitzer e o National Book Award e muitos dizem que foi em grande parte por essa obra que o autor levou o Nobel em 1962. Mas para outros tantos o livro não valia suas mais de 500 páginas e foi banido em livrarias e até queimado, sendo crucificado como propaganda tanto pela direita quanto pela esquerda americana. Esse, por si só, já é um motivo para ler o livro. Afinal, quem consegue unir direita e esquerda dessa maneira?

A história de “As vinhas da ira” acontece no auge da Grande Depressão americana que durou 10 anos (1929-1939). Muito já se falou sobre essa época: a queda da Bolsa de Nova York deixou Wall Street em frenesi: investidores quebraram, bancos faliram, empregos desapareceram e famílias inteiras passaram a viver na pobreza extrema. Essa situação nas cidades já era triste, mas Steinbeck nos mostra um lado ainda mais desumano da crise e, normalmente, ignorado em momentos como esse.

A resenha pode conter spoilers. 

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A família Joad vive em um pedaço de terra em Oklahoma – estado prioritariamente agrário e umas da regiões mais afetadas pela Depressão. Combinada com uma seca como nunca visto antes, fazendas inteiras perderam suas produções, ampliando o número de desempregados e famintos. Além disso, o campo estava se industrializando e os grandes tratores passaram a fazer o que antes 5-10 homens faziam. Os donos das fazendas não conseguiam manter suas terras e muitos se afundaram em dívidas e perderam seus terrenos para os bancos. Os bancos, por sua vez, precisavam maximizar os lucros a fim de sanar as dívidas e fazer com que a terra se tornasse produtiva novamente. Entram tratores, desaparecem famílias inteiras.

Uma das cenas mais tristes do livro ocorre logo no início quando um dos poucos empregados que restam na fazenda em que os Joad vivem diz que a ordem é passar por cima da casa deles, com gente ou sem. Eles precisam sair dali. Não há emprego e nem comida. O patriarca da família, Tom Joad, recebe um panfleto que diz que na Califórnia estão precisando de homens para as colheitas.

Colocando o pouco que tinham em um caminhão velho e caindo aos pedaços, os Joad tomam o rumo da Califórnia. Tom Joad Filho, que esteve preso por quatro anos por matar um homem que tentava matá-lo, não pode sair do Estado dada sua condicional. Porém, decide partir com a família para ajudá-los a buscar melhores condições.

A viagem é dura. Rosasharn, irmã de Tom, está grávida; os avós não vão aguentar muito e as crianças estão inquietas. A cada parada parece que tudo se torna mais difícil. São mais de 2 mil quilômetros que separam os Joad de uma vida melhor e, em um caminhão pouco confiável, a viagem demora um tempo considerável. Mas o pior é que no caminho eles encontram muita gente exatamente na mesma situação. A famosa Highway 66 está lotada de pessoas que abandonaram suas terras pelas promessas da Califórnia.

Tudo o que parece ser bom demais, normalmente não é. Ao chegar à Califórnia, o que os Joad encontram é mais miséria. Encantada pela promessa de começar de novo, uma multidão do país inteiro se deslocou para a região que, claro, não tem como suportar essa demanda. Os acampamentos de imigrantes começam a lotar e chamam a atenção pela falta de estrutura e condições básicas para viver. Ainda assim, tudo o que os Joad querem é emprego. Não pedem nada de graça, não roubam, não desejam viver a “boa vida”.

Acampamento em Mays Avenue em 1939 – via Only in your State

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No filme Django Livre de Quentin Tarantino há uma cena instigante: Leonardo DiCaprio, que interpreta o dono de uma fazenda escravocrata Calvie Candie, faz uma pergunta a seus convidados: “Por que eles não se rebelam e nos matam?” O medo de uma revolta dos negros fez com que muitas leis abolicionistas fossem postergadas mantendo vivo nos Estados Unidos um sistema que se desmantelava no mundo todo.

Os Joad enfrentam algo similar na Califórnia, encontrando a fúria dos trabalhadores locais e dos donos das fazendas que os viam como animais sem rumo. Os bancos, com medo de que eles se rebelassem e tomassem as terras à força, criam uma Associação de Fazendeiros e forçam os salários cada vez mais para baixo. Obrigados a trabalhar por migalhas, esses imigrantes não teriam forças para uma invasão.

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Estima-se que mais de 15% dos residentes de Oklahoma deixaram tudo para trás para tentar a vida na Califórnia na época. Sob esse prisma, “As vinhas da ira” poderia ser uma obra biográfica. O livro funciona quase como uma foto de um momento perturbador da história recente do mundo. Não é a toa que é ensinado até hoje nas escolas norte-americanas.

Steinbeck traz à tona a importante questão de quem realmente sofreu com a Grande Depressão. Enquanto muito se fala dos ricos e poderosos que perderam tudo (ou quase tudo), poucos relatos retratam o que aconteceu no cinturão agrário do país. Famílias humildes foram simplesmente esmagadas por uma máquina de fazer dinheiro que mal entendiam. Quando os Joad vão comprar o caminhão, Steinbeck inverte os papéis e nos coloca o ponto de vista do vendedor que nota uma família desesperada para sair dali. Portanto, precisam de um transporte. Dessa forma, vão pagar o que tem e o que não tem. Ele cobra, então, 2,3, 4 vezes o valor real do caminhão. O dono da loja se gaba de ter recebido prestações de pessoas pobres mesmo quando nem esperava mais quando anos depois, um senhor voltou e pagou o que devia.

Mais do que reforçar uma história importante, o autor também coloca o que parece ter sido o início de um dos debates mais intenso dos últimos 100 anos quando falamos sobre mão de obra: os trabalhadores que se recusavam a aceitar salários miseráveis eram chamados de “vermelhos” e iam presos. Essa terminologia seria muito usada nos EUA pós-Guerra quando o FBI (criado em 1935) de J. Edgar Hoover promoveria uma verdadeira caçada aos “comunistas americanos”.

Uma família com nove pessoas na Highway 1 a caminho da Califórnia (via Only in your State)

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É impossível não fazer um paralelo com o que Steinbeck narra e o Brasil que vemos hoje. A discussão sobre esquerda e direita ultrapassou ha muito tempo a necessidade de responder o que, de fato, é melhor para todos. A verdade é que essa é uma equação difícil e nunca se pode agradar a todos, mas o debate precisa ir além de “vermelhos” e “brancos”.

O que Steinbeck nos mostra é que se a corda sempre quebra para o lado mais fraco, muitas pessoas nem sabem de que lado estão e o que aconteceria depois. Essas são, normalmente, as que mais sofrem com os resultados.

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A leitura do livro flui bem. Steinbeck consegue colocar estilos diversos em uma mesma obra: temos um pouco de romance, de história e de road-trip numa única obra. Ele consegue, também, criar cenas que servem tanto para avançar a história quanto para destruir as defesas do leitor.

Esgotado no Brasil, “As vinhas da ira” é uma leitura essencial. Não apenas por ser uma obra prima dessas que poucos autores conseguem escrever, mas porque é essencial entendermos os efeitos das crises passadas em todas as esferas e debatermos os reais problemas, as causas e não apenas as consequências.

Cinco doses de café gourmet tipo exportação.

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