Resenha – Bigornas
por Juliana Costa Cunha
em 22/04/19

Nota:

Bigorna

sendo princípio e fim

escrevo porque não há

deus ou homem

que seja como deus pra mim

Yasmin Nigri chegou às minhas mãos através de um empréstimo literário feito pelo Caio Lima do Rede de intrigas. A escritora carioca, nasceu em 1990. É poeta, artista visual (tem canal no youtube desde 2017), ensaísta e filósofa. Sua primeira poesia publicada em livro consta no “50 poemas de revolta”, pela Companhia das Letras. Bigornas é seu livro de estreia.

Eu já havia lido algumas coisas sobre a escritora e também alguns poemas aleatórios. E sempre ficava curiosa pra ler mais. O livro foi lançado pela Editora 34, e traz as poesias de Yasmin divididas em 4 partes:
“Rua de ontem”, “Recibos”, “Mulher Malevich” e “Bigornas” .

As poesias aqui reunidas nos falam de fracasso e de se reconstituir deles. E fazem essa alegoria com as bigornas, este objeto pesado e feio, que podem machucar profundamente, mas que em suas poesias são lançadas ao longe para machucar, para tirar de perto, ou mesmo para fazê-las caminhar um novo caminho.

É uma poesia bastante contemporânea e que traz muito do cotidiano da escritora. Do seu desejo de ser salva, das suas buscas por mais tranquilidade, por mais espiritualidade e, também, por mais pessoas por perto. Além de trazer homenagens a autoras/es que permeiam seu cotidiano de leitora e também o afeto de sua casa para um café.

…sem café

café tem me tirado o sono

sabe como é

uma voz interna escarnece violentamente

tudo tem te tirado o sono

menos o café…

O livro é dedicado à sua mãe e às mulheres. É forte neste aspecto, que traz a marca do machismo em várias passagens de sua vida ou de alguém próximo. Mas também é um livro com poemas que nos instigam à transformação. E parece ser esse o mote de todas as poesias. A transformação através das experiências vividas.

Esta foi uma leitura que não me pegou na primeira parte. Achei que não ia rolar. Quem me acompanha por aqui sabe que pra mim poesia é muito mais emoção do que a métrica e a rima perfeitas. Mas aí veio a segunda parte, aquela que ela batiza de “Recibos”, na qual ela faz poesias em homenagem a escritoras/es que ela lê e que a influenciam de certa maneira. E foi nessa parte que ela me fisgou. Daí em diante foi ler com sorriso nos lábios.

Manoel de Barros

apequenei-me de imensidões

deu furo no meu vazio

replete de imanências

ocupei-me em desconhecer

coisas e seres

desletrei-me

colecionei desutilidades

apropriadas para nadas

preteri ser gente

para andar com os bichos

devotei-me às borboletas

que devotam túmulos

não sendo subterrânea

tentei árvore

depois ninho

tampouco sendo madeira

ou verso de folha

tentei pedra

não fui comum com pedras

assumi compostura de água

acomodei-me incolor

no concluir das marés

sentimento longínquo

ampla solidão

de coisa esquecida na terra

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