Resenha – Caderno de memórias coloniais
por Juliana Costa Cunha
em 20/05/19

Nota:

Lourenço Marques (atual Maputo) em Moçambique, é o cenário das memórias de Isabela Figueiredo. Além da cidade e do país como cenários físicos destas memórias, a autora nos apresenta seus sentimentos sobre o período de “colonização” e descolonização portuguesa por lá.

Isabela é filha de colonos portugueses e nascida em Lourenço Marques. Com a descolonização (1975) voltou a Portugal, deixando para trás suas raízes, histórias e seus pais, tornando-se uma “retornada”.

Ao longo das páginas deste livro nos deparamos com um relato cru, sarcástico e sentimental sobre as percepções da menina Isabela no período colonial e posteriormente do seu retorno a Portugal na casa da avó e o choque de realidade vivenciada.

Acompanhamos, através da visão desta criança, o racismo, as dificuldades enfrentadas pela população negra de moçambique com o trabalho escravo, já que os negros eram irremediavelmente mau pagos pelos colonos.

Junto com a Isabela criança, nos damos conta da separação entre brancos e negros, bem como dos brancos usando de sua força e suposta superioridade para subjugar as mulheres negras a seus prazeres – “Os brancos iam às pretas”. A criança Isabela, não podia brincar com as crianças negras. A não ser que fosse escondido. Não podia ter costumes de negros, como andar descalça por exemplo, a não ser que fosse escondido. A menina Isabela, apesar de ser natural de Lourenço Marques, era branca e isso fazia toda a diferença.

O livro é também um passar a limpo todo o amor e desamor da autora por seu pai, visto que ao longo de sua vida e das percepções que foi tendo sobre a “colonização” em África pelos Portugueses, passou a confrontar as ideias de seu pai, colonizador e racista até sua morte.

Falando sobre suas memórias, que tem o pai como centro da narrativa, Isabela provoca a nossa percepção para como as ações particulares de seu pai fazem parte e participam de uma perspectiva maior de brutalidade e dominação. Patriarcal, machista e escravagista.

Me senti tocada por este relato afetivo, apesar de tão corrosivo.

***

Livro enviado pela editora.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Caderno de memórias coloniais”


 

Comentar