Resenha – Calibã e a bruxa
por Juliana Costa Cunha
em 16/12/19

Nota:

Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva é de autoria de Silvia Federici. Silvia é Italiana, porém mora nos EUA há alguns anos, onde leciona. Ela é escritora, feminista e anticapitalista. No brasil, seu livro foi traduzido pelo Coletivo Sycorax (que disponibiliza o download dos livros da Silvia em seu site) e publicado pela Editora Elefante (que também publicou outro livro da autora – O ponto zero da revolução).

Desde o lançamento e todo o alvoroço em torno deste livro que tinha vontade de lê-lo, mas ainda não havia conseguido o tempo necessário para me dedicar a ele. Eis que a querida da Maria, do Impressões da Maria , me emprestou ele e, enfim, rolou.

Calibã e a Bruxa é um livro teórico e denso. São muitas as informações contidas nele e muitas as referências em notas de rodapé inseridas pela escritora. Ouso dizer que fiz três leituras – a do livro, a das notas de rodapé e as marcações da Maria 🙂 . É um livro que demanda tempo e um caderninho do lado pra fazer as muitas anotações que ele vai trazendo. Mas, mesmo com toda essa densidade é uma leitura que flui muito bem, principalmente por que a Silvia faz questão de usar uma linguagem bem acessível. É evidente o cuidado dela em fazer a informação chegar de forma compreensível ao mais diverso público.

O livro é divido em cinco capítulos. O primeiro é intitulado “O mundo precisa de uma sacudida”, e traz um relato sobre a relação de classe na Europa da Idade média e todas as questões relacionadas com o uso e apropriação de terras entre a nobreza e os plebeus. Também vai abordar os abusos sofridos por mulheres nessa época. Uma época em que os servos viviam em regime de escravidão e constante exploração. Ser camponês era sinônimo de servidão. O regime era feudal e o feudo representava a luta de classes. Não por acaso, a Igreja exercia forte influência nas relações sociais, regulando os protestos sociais que sempre existiram. O enfrentamento a essa situação de opressão era feito por dois movimentos importantes à época: o milenarista e o herético. Os hereges, em particular, tinham um posicionamento político diante da luta de classes e, não por acaso, foram os mais perseguidos pela Igreja que os acusavam de heresia, como forma de atacar toda forma de insubordinação social e política.

Ainda nesse primeiro capítulo a autora deixa evidente que, apesar das duras regras sociais aplicadas às mulheres e os constantes estupros a que eram submetidas, as mesmas tinham uma participação importante nas relações familiares, no cuidado com suas terras e, também, nos movimentos sociais de luta. Alguns, inclusive, sendo organizados por mulheres. Como forma de subjugar essas mulheres e todas as outras, este foi um período de politização da sexualidade, conforme a autora. As mulheres foram expulsas das liturgias e a sexualidade passou a ser um lugar de vergonha, sendo instituídas as penitências através de um catequismo sexual. Este é o período em que o Estado começa a ganhar forma e força. E em que, no processo de transição da perseguição à caça às bruxas, a figura do herege passou a ser, cada vez mais, a figura da mulher.

O segundo capítulo intitula-se “A acumulação do trabalho e a degradação das mulheres”. Nele temos um relato extenso e detalhado sobre o estabelecimento das bases do sistema capitalista, com base na conquista de terras, escravidão, roubo e assassinatos. E, obviamente, as mulheres foram as mais sacrificadas durante esse processo. Período denominado por historiadores como: Era do Ferro, Era do Saque e Era do Chicote. Período de grande fome da população após o cercamento das terras comunais e diversas revoltas populares que derrubavam as cercas e exigiam terra para cultivo e subsistência.

É neste capítulo que a autora afirma que o processo de transição do feudalismo para o capitalismo foi um dos mais perversos para as mulheres, que sofreram um processo de degradação social que se tornou fundamental para a acumulação do capital, permanecendo assim até os tempos atuais.

“O empobrecimento, as rebeliões e a escalada do “crime”, são elementos estruturais da acumulação capitalista na mesma medida em que o capitalismo deve despojar a força de trabalho de seus meios de produção para impor seu domínio”

Silvia também nos informa, ainda no capítulo 2, sobre o controle dos corpos das mulheres, incluindo a procriação forçada para gerar crescimento populacional que havia sofrido grandes perdas no período da Peste Negra. As mulheres que questionavam ou fugiam ao que era imposto, foram brutalmente torturadas, estupradas e mortas. Aqui temos o Estado e a Igreja unidos para o controle da natalidade, proibindo e fiscalizando a realização de abortos, mesmo que este fosse espontâneo. Era a época da Reforma Protestante e da total pauperização das mulheres que, em sua maioria, para ter o que comer, tinham na prostituição sua única oportunidade e por isto eram brutalmente perseguidas. O surgimento do conceito de família como ainda temos hoje em dia, também veio desta época.

Chegamos então ao capítulo 3 – ” O grande Calibã – A luta contra o corpo rebelde”. Aqui Silvia se debruça sobre a questão do disciplinamento do corpo, como uma tentativa do Estado e da Igreja em transformar as potencialidades das pessoas em força de trabalho. Temos também o surgimento da burguesia mercantil. Estamos no século XVII e no auge do conflito entre a razão e as paixões do corpo, período que ficou conhecido historicamente como a Era da Razão. As classes sociais era moldadas de acordo com a necessidade da economia capitalista. Portanto, o corpo era visto como um mero produtor de força de trabalho. No século XVII, o domínio de si foi uma prerrogativa burguesa e, portanto, o proletariado representava aquelas pessoas sem controle, enfermas, que se escondiam no corpo social da vagabundagem e do alcoolismo.

Este é o capítulo em que a autora resgata muitas teorias, citando Marx, Foucault, Descartes e Hobbes. Porém faz duras críticas a estes pensadores, pois nenhum deles aborda o período de caça às bruxas, desconsiderando a real importância deste fato histórico no processo de transição para o capitalismo.

Finalmente, no capítulo 4 chegamos na “A grande caça às Bruxas na Europa”, abordando, como bem diz o título, a grande caça às bruxas comandada pelo Estado e pela Igreja à época. A caça às bruxas nada mais era do que a caça àquelas mulheres que ousavam descumprir as regras. Que questionavam o lugar que lhes era direcionado pela sociedade, pelo Estado e pela Igreja. Silvia afirma que neste período houve um genocídio de mulheres camponesas que lutavam por seu pedaço de terra e por melhores condições de vida. Que tinham o domínio de ervas e plantas medicinais. Que eram parteiras. Que faziam reuniões entre si para discutir melhor forma de melhorar suas vidas. Essas reuniões ficaram conhecidas como Sabá das Bruxas e as mulheres que as frequentavam, acusadas de bruxarias. Daí foi apenas um passo para a Inquisição e a queima dessas mulheres em fogueira depois de serem brutalmente torturadas. Em menos de dois séculos centenas de milhares de mulheres foram torturadas, enforcadas e queimadas.

A caça às bruxas acirrou ainda mais a divisão entre homens e mulheres, introduzindo nos homens o medo do poder que era atribuído às mulheres. Além disso, destruiu uma gama de práticas, crenças e sujeitos sociais, incompatíveis com a disciplina capitalista. Ou seja, a caça às bruxas na compreensão da autora, foi fundamental para a consolidação do modelo de acumulação primitiva no capitalismo.

O quinto e último capítulo deixou muito a desejar para mim. Sob o título “Colonização e Cristianização – Calibã e a Bruxa no Novo Mundo” a autora vai nos apresentar de maneira bem superficial (na minha opinião) o período de caça às bruxas na América através das “colonizações” e do cristianismo. Silvia faz aqui um destaque para as mulheres desta época, salientando que foram elas as que defenderam de forma mais forte seus antigos modos de existência e que resistiram bravamente à nova forma de estrutura de poder. Consequentemente, foram as mais sacrificadas e mortas.

O livro termina trazendo algumas questões da Globalização já no início do século XVIII e uma breve abordagem sobre as novas formas de caça às bruxas na atualidade. Confesso que fiquei esperando mais deste último capítulo. Achei que nos capítulos anteriores ela se estendeu muito em algumas questões, bem como foi repetitiva. Ou talvez não fosse mesmo o propósito dela nesta publicação avançar sobre estas questões. Ou, ainda, dada sua origem e formação não tenha conhecimento para esta discussão da caça às bruxas na América.

Outra coisa que senti falta foi o recorte de raça no livro. A autora se detém bastante no que diz respeito a classe e gênero, mas as questões de raça ficam a desejar. De qualquer forma é um livro que precisa ser lido por homens e mulheres. É uma aula de história sob o olhar de uma mulher e para as mulheres em especial.

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