Resenha – Carta à rainha louca
por Juliana Costa Cunha
em 02/10/19

Nota:

Segundo livro que leio da autora Maria Valéria Rezende. Ambos bem diferentes. A Face Serena já tem resenha aqui no Poderoso, sendo este um livro de contos lançado pela Editora Penalux.

Em Carta À Rainha Louca a autora cria um romance epistolar, narrado entre os anos de 1789 a 1792 pela personagem Isabel das Santas Virgens. No momento em que decide escrever uma carta à Rainha Louca (Maria I), Isabel está presa no convento do Recolhimento da Conceição, em Olinda. E encontra-se num momento muito agitado de sua vida, onde tenta de todas as formas se manter lúcida. Escrever uma carta à rainha louca (ironia pouca é bobagem) como forma de denunciar sua prisão irregular e também de se manter sã, é o único recurso que lhe resta.

E por isso mesmo as duas primeiras partes do livro são bem confusas e também cansativas de ler. Porém com o avançar da leitura entendemos esse artifício utilizado pela autora. É nessas duas partes do livro que se faz uso do recurso de tachar o texto. No fluxo de pensamento e de escrita de Isabel, ela vai escrevendo o que lhe vem à cabeça. Algumas coisas escreve em termos adequados, outras são bastante irônicas e questionadoras dos costumes da época (principalmente no convento, da religião, do poder e da realeza). Estas últimas são sempre tachadas.

Da terceira parte em diante, temos a personagem principal mais equilibrada e narrando sua desventuras de forma mais linear e a leitura flui que é uma beleza. Assim, acompanhamos desde o nascer da personagem até seus últimos dias no convento.

É um livro que me trouxe muitas questões sobre liberdade, sanidade e loucura. Sobre mulheres que não se enquadravam em padrões da época e por isso eram enclausuradas por suas famílias. Me trouxe uma forte crítica social e uma abordagem contundente sobre machismo, patriarcado e racismo.

E me trouxe também a força das mulheres e do feminino. A sororidade esteve presente ao longo de toda a vida da personagem Isabel. Dela para com outras mulheres. E de outras mulheres para com ela. Em sua carta Isabel nos fala de gênero, raça e classe. É uma grande sacada da Maria Valéria Rezende.

Outra grande sacada da autora, pelo menos a mim me pareceu, é inserir algumas passagens que considero homenagens a escritores como Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. Há uma parte da história na qual Isabel se veste de homem para conseguir seguir viagem e também dinheiro para sua sobrevivência, que considero uma alusão ao Grande Sertão do Rosa. E também há passagens sobre o sertão e suas dificuldades, mas também suas belezas que me remetem ao Cunha. Bem como uma passagem que me pareceu muito com a ideia de Canudos. Porém, na Carta à Rainha Louca, tivemos um matriarcado.

E esta é uma outra faceta do livro. Ele é, também, uma declaração de amor aos livros. À leitura, de modo geral. Isabel era uma mulher que sabia ler e escrever, num tempo em que mulheres não eram educadas para isso. E isso foi, ao longo de sua vida, seu maior tesouro e fonte de sobrevivência. Emocional e financeira.

É um grande livro, minha gente. Merece ser lido com carinho.

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Livro enviado pela editora

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