Resenha – Chapeuzinho Esfarrapado
por Patricia
em 14/11/16

Nota:

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Houve um tempo em que bonecas Barbie era tudo o que algumas meninas queriam. “Nascida” no final da década de 50, a boneca levantou diversos debates sobre o padrão de beleza e o impacto na nossa cultura – recomendo dois textos mais atuais sobre isso: um sobre o lançamento da nova linha de Barbies da Mattel que quebrou todos os conceitos de beleza e um sobre o padrão de beleza que se instituiu com a boneca levando ao conhecido “complexo de Barbie”.

A Barbie marcou não apenas uma geração de mulheres como também representou os movimentos da época. À medida em que as mulheres começavam a prosperar na carreira, a boneca ganhava novas profissões. Quando divórcio deixou de ser um tabu – muitos já falavam da Barbie se divorciando do Ken.

Uma outra marca gigante na infância de diversas meninas por gerações e gerações é a Disney. Com suas representações animadas de contos de fadas muitas vezes bem mais antigos, a empresa criou uma legião da fãs e meninas que sonhavam em ser princesas. E aí, para além do complexo de Barbie, surgiu também o “complexo de princesa”.

Vale ressaltar que esses termos são leigos e desconheço se existem termos oficias. Mas podemos simplificar dizendo que ambos os complexos significam uma expectativa fora da realidade pautada em um mundo de faz de conta que impacta como as pessoas acreditam que devam se portar, como adequam sua aparência e como outros devem tratá-las. E vale também dizer que nem só as mulheres sofrem desses complexos.

Quando falamos de gênero em contos de fadas (pelo menos até agora), já sabemos quem estará ajudando quem. Histórias com esses gêneros invertidos ainda não chegaram ao público. Pelo menos, não com o mesmo impacto que os filmes da Disney. Porém, tal como a Barbie, a Disney também está se adaptando ao seu tempo. Mais recentemente foi anunciada que Moana, sua nova protagonista seria uma guerreira polinésia. Teremos também Elena, a primeira protagonista latina. Em Valente, a princesa Merida se rebela quando os pais criam um concurso para ver quem está apto a casar com sua filha. Ela decide que ela mesma vai competir por sua mão.

E ainda que a Disney, graças a seu tamanho e impacto, seja o foco dessa discussão em várias vertentes, é importante lembrar que contos de fadas existem há séculos e são parte de uma tradição humana de dividir histórias. A fantasia agrega aquilo que a realidade não pode explicar.

É justamente aqui que entra o livro “Chapeuzinho Esfarrapado e outros contos feministas do folclore mundial” – lançado recentemente pela Editora Seguinte. Organizado por Ethel Johnston Phelps, estudiosa da literatura medieval, o livro nos apresenta contos das mais diversas partes do mundo com uma diferença bem clara: as personagens principais são mulheres e elas não estão sentadas à espera de salvamento. Elas ajudam os moços de várias maneiras, com força bruta ou com inteligência; tomam decisões na casa e não abaixam a cabeça para maridos. Elas são modelos diferentes e suas histórias são contadas há séculos mas nunca tiveram a popularidade das demais histórias que hoje conhecemos.

O livro rende uma leitura leve com contos curtos. Para adultos é divertido descobrir um mundo novo que nem sabíamos que existia. Imagino que para as crianças, seja ainda melhor. Ao nos apresentar contos em que os gêneros são subvertidos do que conhecemos normalmente, a autora nos apresenta a tribos e nações que sempre reconheceram o papel e a força da mulher. As ilustrações são belíssimas também (mas poderia ter mais). Meu maior ponto negativo é resultado de uma neura pessoal: folhas brancas não são legais. 🙁

Fora isso, a leitura é recomendada fortemente para pais, mães, filhos, filhas, avós, avôs, sem gênero, com gênero, em dúvida e afins. Este é o tipo de livro que nos ajuda a redefinir toda uma conversa.

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Livro enviado pela editora

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