Resenha – Claros sinais de loucura
por Patricia
em 10/11/14

Nota:

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Esse foi o livro que escolhi do catálogo da Intrínseca para a leitura de parceria desse mês.  A escolha se deu em grande parte porque a Gleice Couto do Murmúrios Pessoais fez uma excelente resenha do livro e em parte por ser infanto-juvenil e termos inaugurado esse gênero recentemente aqui no Poderoso. 🙂

O livro nos conta sobre Sarah Nelson que acabou de fazer 12 anos, mas já tem muito para dividir com o leitor. Quando ela tinha apenas dois anos, sua mãe tentou afogá-la junto com o irmão gêmeo. Sarah resistiu, o irmão não. Sua mãe foi presa e seu pai tornou-se uma casca, um homem quebrado e perdido. Mesmo tão nova, Sarah é uma menina solitária e triste; presa entre a vontade de saber mais da mãe e o medo de perguntar a um pai ausente.

Ela escreve em seus diários – um de verdade em que coloca seus pensamentos mais profundos e que ninguém deveria ler e outro super fofinho, lindinho, rosinha que qualquer um pode ler que ela vai parecer uma menina normal. É entre esses dois mundos que Sarah vive – entre a vida real, aquela que junta o bom e o ruim e sua curiosa e criativa mente jovem que entende tudo antes dos adultos notarem que ela já entendeu; e aquele mundo no qual ela gostaria de viver, em que tudo parece melhor.

Sarah coleciona palavras, suas maiores amigas; as únicas que sabem realmente o que ela pensa. O leitor vai acompanhá-la por descobertas comuns à idade e outras não tão comuns assim. A sinopse desse livro é realmente algo simples. Seria o que classificam como “coming of age”, aquela história de uma criança que começa a se tornar adulto. Ainda que Sarah tenha apenas 12 anos, sua pré-adolescência já começa a ser marcada por uma maturidade não solicitada.

Enquanto eu lia esse livro foi me acendendo uma luz na cabeça e percebi o quanto de coragem a gente precisa para ser criança. Porque ser criança é literalmente enfrentar o desconhecido. Não importa quantas vezes alguém te explique alguma coisa, quando acontece pela primeira vez a sensação é sempre de solidão. Até entendermos que, sei lá, sangrar mensalmente é normal para meninas, já pensamos várias vezes se aquilo significa a morte ou alguma doença muito séria. A verdade é que toda primeira vez é sempre assustadora. E acho que à medida que crescemos, apagamos de nossas mentes esses momentos porque eles nos mostram uma pessoa que não somos mais, afinal, hoje já sabemos muito em comparação com o passado.

Acredito que grande parte do sucesso da autora em traduzir a voz de Sarah é que, em nenhum momento ela cria uma personagem que não tenha 12 anos. Não é uma mulher de 30 se fazendo passar por uma menina que é a protagonista de seu livro. Se me dissessem que uma mocinha de 12 anos escreveu o livro, eu acreditaria. Mas não me entenda mal: esse não é, de maneira nenhuma, uma leitura leve. O livro é intenso justamente porque nós sabemos o que Sarah não sabe: que criança nenhuma deveria lidar com uma mãe assassina e um pai bêbado. Que não é normal você fazer as malas e mudar de cidade cada vez que alguém descobre algo ruim sobre sua família. Que não é comum não ter amigos. E são esses pontos que tornam a história mais triste.

Eu realmente me senti muito próxima de Sarah, mesmo sem ter nenhuma experiência de vida remotamente similar às dela. Porque ela é honesta em seu ‘não saber’, ela é sincera em seus medos e aberta ao que ainda não compreende. Qualidades que acho essenciais em qualquer idade, mas que são difíceis de traduzir para o papel. Karen Harrington conseguiu fazer isso de maneira impressionante e muito sensível.

Podem acreditar, vale todas as doses de café possíveis.

***

O livro foi enviado pela editora. 

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