Resenha – Clube da luta
por Patricia
em 06/07/15

Nota:

Unknown

Meu primeiro contato com Clube da luta foi com a adaptação do livro para o cinema. O filme, lançado em 1999, foi dirigido pelo incrível David Fincher – de House of CardsGarota Exemplar e a versão americana de Os homens que não amavam as mulheres, para citar alguns – e com atuações excelentes de Brad Pitt e Edward Norton. Não conhecia a obra de Palahniuk, mas o filme está na minha lista de preferidos desde que o vi pela primeira vez, há muitos e muitos anos.

Vamos aqui, portanto, esquecer a primeira regra básica e falar de Clube da luta.

A história começa com o protagonista – sem nome – nos mostrando um pouco de sua vida patética e depressiva. Sofrendo de insônia, ele vai a grupos de apoio de diferentes doenças – que, aliás, não tem. Ali, tenta encontrar algum conforto em estranhos enfrentando batalhas muito difíceis. Mas nem mesmo a perspectiva de problemas alheios – muito maiores que o seu próprio – serve de algo.

Em uma viagem ele conhece o enigmático Tyler Durden. Tyler tem um trabalho peculiar usando gordura humana para fazer sabonetes super faturados que são vendidos em lojas de alto padrão. Além disso, também trabalha em ‘bicos’ como garçom.

Quando Tyler e o protagonista se conhecem, tudo começa a mudar. Juntos, fundam um clube da luta para homens que precisam de um espaço para…digamos, extravasar. O clube cresce rapidamente e o protagonista – vamos chamá-lo de P por ora para facilitar no restante do texto – passa a se dedicar cada vez mais a esse lado de sua vida, deixando seu emprego como coordenador de campanhas de recall de lado, questionando tudo o que acreditava antes e mudando drasticamente suas circunstâncias.

Porém, P rapidamente se torna um personagem secundário – apesar de ser o narrador da história. Tyler toma conta de tudo, todas as cenas e todos os pensamentos de P que parece fissurado em estar sempre próximo de Tyler. O relacionamento deles é bizarro e o leitor vai entender o motivo disso ao final do livro. P encontra em Tyler uma pessoa que desdenha de tudo o que vê e sente que precisa ser mais assim, que precisa deixar de ser escravo do salário no final do mês e da vida padrão que todos querem. Essa é a maior influência de Tyler – e não apenas em P, ele força o leitor a também questionar suas próprias atitudes, seus pensamentos padronizados e seus desejos regrados pela televisão e marketing de produtos.

Tyler despreza algumas regras da sociedade e muito do seu discurso tem um viés anarquista forte – a revolta dos oprimidos ou algo do gênero. O teor político do livro, porém, não é exagerado. A verdade é que muito pouco acontece fora desse contexto. Vemos o clube da luta crescer, se espalhar pelo país e transformar Tyler em algo como um Deus para os membros.  O clube também transforma a vida de P de algo regrado, normal, esperado para exatamente o contrário.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é que apesar de tom anarquista, anti-capitalista e tudo o mais, há algo aqui que é inerente ao ser humano: a vontade de pertencer. Vemos isso com P que entre todas as opções para curar sua insônia, decide ir a grupo de apoios onde abraça estranhos e chora. Tyler forma seu próprio grupo “paramilitar”, uma unidade de homens que seguem suas regras e o defendem até a morte. Ambos buscaram algum tipo de associação com outras pessoas para escapar de suas mentes solitárias. Até mesmo o Clube da Luta não deixa de ser uma forma de associação – onde se apanha de estranhos, mas mesmo assim.

E, me parece que essa é a grande questão da obra. Por mais que possamos questionar o sistema no qual estamos inseridos, sem outras pessoas fazendo o mesmo, seria como um maluco gritando na rua que o mundo vai acabar. Associação é importante. Pertencer é importante. E pode ser algo poderoso como o próprio Tyler experimenta quando torna-se líder do grupo. Nem sempre, porém, essas associações são positivas e, como o próprio P percebe, um teor de fanatismo pode estragar qualquer boa intenção.

Palahniuk escreve de forma muito simples, sem monólogos longos que visam dar lição de vida ou de moral. Quando as falas são mais longas, são para externalizar algum pensamento específico e bem contextualizado:

Lembre-se disso – Tyler diz. – As pessoas em que você quer pisar, nós, somos as pessoas das quais você depende. Somos nós que lavamos suas roupas, preparamos sua comida e servimos o seu jantar. Arrumamos sua cama. Cuidamos de você enquanto dorme. Dirigimos as ambulâncias. Passamos as suas ligações. Somos cozinheiros e motoristas de táxi e sabemos tudo sobre você. Processamos seus pedidos de seguro e gastos no cartão de crédito. Controlamos todas as partes da sua vida. Somos os filhos do meio da história, criados pela televisão para acreditar que um dia seremos milionários, astros de filme ou da música, mas não seremos. E estamos entendendo isso agora – Tyler falou. – Então não venha foder com a gente.

O autor não tem medo de virar a história de ponta cabeça e entregar algumas surpresas ao longo da leitura. Palahniuk não teme perder o ritmo do livro quando aumenta o tom de ironia ou amplia as cenas de Tyler a tal ponto que tornam-se desconfortáveis (a explicação dele de como fazer sabonete com gordura humana é um bom exemplo). Excelentes personagens, enredo bem conduzido, desconforto na medida para tirar o leitor da mesmice. P**a livro.

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