Resenha – Columbine
por Patricia
em 13/11/19

Nota:

Em 20 de abril de 1999, Eric Harris e Dylan Klebold entraram na Escola Columbine em Littleton no Colorado, com bombas caseiras e armas automáticas prontos para matar o máximo de alunos que suas munições dessem conta. Durante 40 minutos, aterrorizaram os 2000 alunos presentes na escola , no fim, matando 12 estudantes e 1 professor para depois se suicidarem. Por três horas, a polícia e um time da SWAT ficou do lado de fora sem saber exatamente o que fazer. Até aquele dia, foi o maior atentado a uma escola.

A história monopolizou a imprensa por meses com jornais publicando matérias diárias (alguns, com mais de uma coluna por edição). Sem a rapidez da internet, demorou algum tempo até que todo o país estivesse ciente do que aconteceu. Mas uma vez que a historia saiu, só se falava nisso. Não foi o primeiro tiroteio em escolas dos Estados Unidos, mas foi um dos maiores até então. Alguns programas tinham uma linha aberta para os alunos que estavam presos dentro da escola e colocavam eles no ar para que contassem – AO VIVO – o que acontecia.

Para os investigadores, as bombas grandes mudaram tudo: a escala, o método e o motivo do ataque. Acima de tudo, era indiscriminado, todos deveriam morrer. Columbine foi fundamentalmente diferente de outros tiroteios escolares porque não pretendia ser um tiroteio, de modo algum. Em primeiro lugar, foi um ataque à bomba que falhou. (pág. 133)

Quando tudo acabou e definiu-se o “como”, a logística do ataque, começaram a surgir os “por quês?”. A comunidade e, principalmente, as famílias das vítimas queria entender os motivos dos assassinos. Rapidamente, teorias conspiratórias começaram a cair: Eric e Dylan eram de famílias estruturadas, de boas condições financeiras, pais ainda casados, nenhum sinal de abuso de qualquer tipo, era bons alunos e, até certo ponto, populares. Eram tão “estranhos” quanto qualquer outro adolescente aos 17-18 anos. Não parecia haver nenhuma explicação plausível. Então…por que?

Ambos os assassinos deixaram diários em que escreveram sobre o atentado e tudo o que pensavam de basicamente tudo. Harris era extremamente inteligente, se considerava um deus e tinha desprezo pela humanidade. Via os humanos como fracos e tinha certa adoração por mitos e símbolos nazistas. Dylan se sentia oprimido pelo mundo, repeti que vivia em uma escuridão infinita e só queria encontrar alguém para amar. Solidão era um tema comum mas ambos a viam de maneiras diferentes.

Dave Cullen era jornalista freelance e foi incumbido de cobrir o tiroteio em Littleton. Ali, ele conheceu de perto as famílias das vítimas e acompanhou as estranhas investigações da polícia. Aos poucos, noticias sobre os atiradores apareceram mas nada parecia fazer muito sentido.

Passariam anos até que alguma resposta pudesse, de fato, ser sequer ensaiada. O livro de Cullen combina uma pesquisa profunda do passo a passo do tiroteio até a investigação policial e tudo o que foi descoberto. O livro saiu em 2009, dez anos depois do acontecido justamente porque nada podia ser concluído antes. Em 2002, Michael Moore lançou seu documentário intitulado Tiros em Columbine que, apesar de excelente, tem alguns erros sobre o dia do tiroteio. O foco de Moore, porém, foi discutir a cultura de armas dos Estados Unidos e, nesse ponto, o documentário é excelente.

Cullen fala sobre as vítimas, dedica capítulos inteiros aos sobreviventes – dos que saíram ilesos, até os que quase não sobreviveram. Além disso, Cullen também fala muito sobre os pais dos assassinos que estavam tão perdidos quanto todo mundo. Seus filhos provaram ser monstros e eles não puderam fazer nada para evitar. Em 2017, Sue Klebold (mãe de Dylan), promoveu uma palestra no TED: Meu filho foi um dos atiradores de Columbine. Essa é minha história.

Mas Cullen vai mais além: ele também fala muito sobre o papel da imprensa na criação do mito de Harris e Klebold. Enquanto a polícia não dava respostas críveis, a imprensa tentou preencher o vazio com suposições próprias: os atiradores eram isolados ou apanhavam dos valentões ou tinham raiva dos atletas e etc. Quando não podiam responder nada com certeza, criaram idéias que se perpetuaram. E pior, a cobertura incitou uma terrível nova modalidade de turismo.

Então os turistas chegaram: poucas semanas após a tragédia, mesmo antes de os estudantes retornarem, ônibus de excursão se aproximaram da escola. Columbine tinha pulado para o 2o lugar, depois das Montanhas Rochosas, como ponto turístico mais famoso do Colorado, e os agentes de turismo não demoraram a capitalizar. (pág. 252)

O que a mídia criou foi um frenesi que gerou símbolos para todos aqueles que achavam que entendiam o que os atiradores de Columbine queriam. De repente, todo aluno que se encaixa na teoria criada pela imprensa, passou a ver Columbine como uma meta. Nos dez anos depois de Columbine, mais de oitenta tiroteios escolares aconteceram nos Estados Unidos. Um dos mais letais – o tiroteio de Virginia Tech de 2007 com 17 mortos e 17 feridos – foi inspirado por Columbine, confirmado em carta deixada pelo assassino. Vários outros atiradores citaram Harris e Klebold como exemplos quando foram presos.

Em abril desde ano, na marca de 20 anos da tragédia, John Ingold – que na época trabalhava no Rocky Mountains News (que cobriu Columbine quase diariamente por meses) – escreveu um artigo para o Colorado Sun intitulado: “Como a imprensa, e eu também, ajudou sem querer a criar uma narrativa para Columbine que inspirou assassinos desde então” (tradução livre). O canal 9NEWS fez um documentário também neste ano (muitos outros podem ser encontrados no Youtube).

A pesquisa é bem feita, a edição é bem feita, a história é triste. Há uma parte do epílogo (a experiência do autor) que acredito ser menos relevante ao leitor. Há algumas repetições e dados que são apresentados por motivo nenhum – no capítulo em que um dos sobreviventes vai para o hospital, ele não consegue dizer seu nome completo: Patrick. Acaba saindo Rick. O autor termina com “isso causará problemas depois”. Mas nunca sabemos que problemas foram esse. Há vários dados assim jogados e colocados como muito relevantes que nunca são explicados.

Ainda assim, é uma leitura válida e o todo é muito mais forte do que pequenos erros de revisão. Cullen parte dessa tragédia para discutir o papel da imprensa e fazer uma chamada aberta aos jornalistas que precisam lidar com uma notícia tão terrível quanto crianças assassinando crianças. Na época da internet com ciclos de noticias 24 horas, essa conversa é cada vez mais importante.

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