Resenha – Como se estivéssemos em palimpsesto de putas
por Juliana Costa Cunha
em 14/10/19

Nota:

Com este livro Elvira ganhou o Troféu APCA, prêmio concedido pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte. Nele temos uma narradora bem implicada no texto. E esta pessoa é a própria Elvira. Sim, esta é uma das características da escritora, falecida em 2017, falar sobre coisas que aconteceram consigo mesma.

Elvira foi escritora e desenhista, nascida no Rio de Janeiro em 1947. Dona de uma escrita inteligente e sarcástica, a mesma exige atenção de quem a lê. Em Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, através de encontros diários entre a narradora e João (outro personagem central da trama), vamos conhecendo a história dele e daquelas pessoas que o cercam. Bem como a história de vida da personagem narradora naquele momento.

E a história de João é basicamente esta: um cara que desde sempre procurou as putas para satisfazer o que nem ele mesmo sabe. Um cara que se casou e mesmo assim continuou indo às putas e não consegue entender por que sua mulher em dado momento da vida se separa dele.

Segundo o dicionário, palimpsesto é um substantivo masculino. Papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro. E isto explica muito do processo narrativo criado por Elvira. As histórias vão se sobrepondo. E, mais do que isso, dada a escassez de informações dadas por João ao narrar suas histórias a narradora insere suas próprias percepções sobre o que lhe é narrado. Assim, cria outras tantas versões diante das lacunas deixadas por João e por seu processo de apagamento das putas em substituição a outras, até que isso inclui a sua mulher.

Para mim, a grande sacada deste livro está nesta potência narrativa e, principalmente, como a autora se utiliza das lacunas narrativas para inserir suas críticas ferozes. Do nada ela te joga na cara questionamentos sobre a prostituição, sobre quem está no comando quando há dinheiro envolvido e quando não há; sobre questões feministas e do machismo latente das personagens masculinas; sobre masculinidades; sobre desejos reprimidos, sobre honestidade; sobre o mundo do trabalho e nosso eterno vaguear até encontrar nosso lugar ao sol (ou não); sobre a subjetividade do ser humano; sobre solidão.

Foi meu primeiro contato com a autora que, lamentavelmente é mais uma a ser efetivamente reconhecida por seu potencial literário após sua morte. Eu vou ler mais Elvira. Sugiro que façam o mesmo.

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