Resenha – Contos Anarquistas
por Patricia
em 13/07/16

Nota:

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Comprei Contos Anarquistas pelo meu interesse no tema, sem saber muito sobre a ideologia anarquista (além do básico e óbvio) em si ou sobre os autores citados nessa compilação – muitos, aliás, não são autores nesse sentido exato da palavra e explico isso um pouco mais à frente. Lançado pela Editora Martins Fontes, o livro compila diversos texto – aqui denominados livremente de contos – de temas centrais relacionados à ideologia anarquista que teve um ápice no Brasil entre 1850 e 1900 – com a chegada de imigrantes europeus, principalmente os italianos, que seguiam a doutrina na Europa.

A pretensão da obra é de demonstrar parte do conteúdo da literatura anarquista – um tema difícil de encontrarmos nas livrarias comuns do país hoje em dia em que opiniões tendem a ser levadas ao extremo não importa o assunto em voga.

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Em resumo, o anarquismo prega a extinção total dos governos que vê como uma força coercitiva desnecessária. A sociedade, então, seria organizada na base da ética e princípios moralmente aceito por todos. Se todos seguissem o princípio básico da ética, os governos, a polícia e tudo o mais que sustenta um estado de direito que, por sua vez, cria instituições de controle, tornaria-se obsoleto. É uma ideologia considerada de esquerda, alinhada ao comunismo no quesito trabalho: o lucro deveria ser extinto e todo o trabalho deveria ser feito por todos e para todos. É uma utopia extrema que nunca chegou a ser realmente colocada à prova em um nível de real impacto.

No Paraná, de 1890 a 1894, a Colônia Cecília foi o mais próximo de um experimento anarquista que já tivemos no Brasil. O anarquista italiano Giovanni Rossi, criou uma comunidade com outras 5 pessoas que viveriam sob os ideais anarquistas. No auge, estima-se que 250 pessoas chegaram a morar na Colônia.

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Contos anarquistas é dividido em partes organizadas para guiar o leitor no tema. As partes são intituladas: Formação Militante, Projeções da Utopia Libertária, Negação do Estado e da Ordem Burguesa, Moral Anarquista, Miséria Urbana e Cotidiano Operário. A introdução tem mais de 60 páginas explicando a motivação por trás da obra e um breve resumo da história do anarquismo no Brasil com uma linha do tempo que liga acontecimentos locais com mundiais que demonstram a tendência do movimento na época. É uma introdução parruda mas necessária.

Aos não iniciados no assunto, a parte mais significativa será mesmo a primeira: Formação Militante. Ela apresenta o fio condutor de todos os outros contos e esclarece temas importantes na ideologia anarquista apresentando, inclusive, conceitos como anarcosindicalismo – que impactava em ações diretas como greves e boicotes aos patrões. Os contos dessa parte são didáticos e bem simples. Alguns não são escritos por autores profissionais porque os anarquistas acreditavam que qualquer um que tivesse algo a falar, poderia falar a todos. Portanto, não espere uma estrutura clara ou um texto formatado de determinada maneira. A primeira parte tem a seu favor, também, o fato do leitor estar fresco na leitura, talvez ansioso por aprender mais.

Muitos dos textos são situados em locais de trabalho, mais especificamente no chão de fábrica – que simboliza muito claramente a separação entre trabalhadores e patrão já que a introdução da questão/conceito mais-valia apareceu no início da Revolução Industrial quando o homem passou a ser a parte menos importante da “máquina”. E é no auge da era industrial que surge a ideologia anarquista – como uma resposta direta ao novo padrão de trabalho que aparecia. Alguns contos chegam a falar da extinção da moeda e de uma nova forma de troca mais igualitária.

Porém, ler um texto seguido do outro tende a ser cansativo dada a repetitividade do assunto. Alguns são bem simples, uma conversa direta entre um anarquista e uma pessoa que não acredita no anarquismo e que acaba convertida enquanto cria-se o cenário ideal para uma pequena aula sobre o tema. A raiva contra a burguesia e o patrão tornam alguns contos arrastados ainda que sejam curtos. Outros chegam a ser bem violentos, relatando a morte do patrão e sua família ou assassinatos.

O termo conto é usado de maneira livre. Já na introdução, os organizadores explicam que “o que caracteriza o conto anarquista é apresentar uma temática determinada, uma duração narrativa muito escassa e uma exposição ideológica como base. […] A caracterização exterior da personagem é mínima, seu desenvolvimento psicológico quase nenhum, e a relação entre a ação e o espaço é mediada pela motivação ideológica.” Portanto, o livro contém alguns textos de qualidade duvidosa – daqueles que hoje seriam quase similares aos textões do Facebook – alguns com algum nexo, outros nem tanto.

Merece a atenção dos interessados no tema, mas não se mantém por contra própria.

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