Resenha – Contra os filhos
por Juliana Costa Cunha
em 04/11/19

Nota:

“A máquina reprodutora continua seu curso incessante: cospe filhos aos montes.”

Contra os filhos, da escritora chilena Lina Meruane, lançado pela Editora Todavia, é uma dessas publicações que quando lançada produz o efeito de um rebuliço. Todo mundo que tem interesse no tema vai querer ler. Quem não tem interesse quer ler também. E, no final, quem leu vai se dividir entre quem gostou e quem não gostou. Acho que esse livro está nessa categoria. E encontrar o “gostei mais ou menos” é um exercício de empatia pelo que está escrito. Pela proposta da autora em se lançar ferozmente sobre o tema.

Estou nesta categoria. Gostei mais ou menos, porque passei toda a leitura fazendo o exercício de tentar entender o que ela estava pontuando em cada um dos sete capítulos desta diatribe, como a autora prefere classificar seu texto e que já dá o tom do que vamos ler. Eu ri em vários momentos (Lina tem uma escrita bem irônica e eu adoro isso). E me incomodei em diversos outros. Concordei em muitos dos aspectos levantados por ela. Mas discordei profundamente das conclusões às quais ela chegava. Ou seja, para mim é possível ler este livro e refletir sobre os diversos aspectos que ela aborda nele sobre a maternidade e sobre os filhos, pois são aspectos relevantes e reais da nossa história social e de gênero. Mas não pactuar com ela de suas conclusões.

Uma das coisas que me incomodou muito durante toda a leitura foi o tom raivoso da escrita. Uma agressividade que chega até às crianças, chegando a nomina-los de filho-tirano. É isso, não há sutilezas nas palavras de Lina Meruane.

Ao longo do livro, Lina faz um apanhando das ondas feministas e salienta: “Prestem atenção: a cada êxito feminista se seguiu um retrocesso, a cada golpe feminino um contragolpe social destinado a domar os impulsos centrífugos da liberação.” Tudo beleza quanto a isso, né? Acho que sim. Porém, ao longo de seu texto fica a sensação de que seguimos não tendo escolhas. O que discordo.

Ela também faz uma crítica feroz ao contemporâneo retorno à mística feminina. Ou seja, uma forma mais natural de autoconhecimento do corpo feminino, do parto natural, do uso de produtos naturais, da amamentação, entre outras questões da “Dona Natureza”, como ela chama. E argumenta que esse é mais um artifício utilizado para o retorno das mulheres para dentro de casa, visto que o natural leva mais tempo e a amamentação “obriga” a mulher a estar 24h vinculada à criança.

“Vocês já devem ter reconhecido: em suma, todos esses princípios são os do retorno à Dona Natureza. Acontece que as essencialistas foram enfeitiçadas pelo anjo-materno agora vestido de verde.”

E aqui talvez esteja a parte que mais me incomodou nesse texto. Primeiro porque coloca de novo a culpa nas mulheres. Segundo porque parece que as mulheres que fazem essa escolha mais natural da maternidade, não tenham tido a opção de fazer essa escolha. Certo, algumas podem não ter mesmo. Mas não acho que seja uma generalização. Terceiro que ela faz uma apologia à industrialização alimentícia para bebês e crianças, como se esta industrialização não tivesse fins capitalista e como se este tipo de alimentação não trouxesse prejuízo de nutrientes, pra falar o mínimo.

A autora ainda traz o conceito de mãe-total, aquela que dá conta de tudo. E a gente concorda que a carga é grande, né? Casa, trabalho, filho, marido (que na maioria das vezes não é parceiro no processo), é realmente uma carga grande. Porém colocar isso como se fosse uma escolha da mulher ao assumir tudo isso sozinha e não uma condição imposta por uma sociedade capitalista, machista e patriarcal foi muito pra mim. E meio contraditório com todo o apanhando histórico que ela vai fazendo ao longo do livro.

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Livro enviado pela editora

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