Resenha – Coração Azedo
por Patricia
em 19/12/18

Nota:

Imigração é um tema recorrente na literatura, mas nunca esteve tão em discussão do que nos últimos dois anos. Com o aumento de governos e bravatas nacionalistas pelo mundo, tem-se elevado o tom contra imigrantes de diversas nacionalidades. Hoje, nos Estados Unidos, os vilões da vez são os latinos.

Na década de 80, a China instalou a política do filho único e os Estados Unidos viram a imigração chinesa aumentar consideravelmente. Muitos equivalem esse momento na história chinesa como um baque geracional e, no final da Revolução Cultural (que terminou em 1976), o país vivia em uma pobreza extrema.

Em “Coração Azedo”, Jenny Zhang nos dá um gostinho do que foi a vida de quem saiu da China para se instalar nessa terra tão diferente, do outro lado do mundo e da qual pouco sabiam. As histórias que ela aborda no livro são tristes e tão pesarosas quanto você poderia esperar.

Zhang cita personagens e situações de uma historia na outra criando um fio condutor, como se todos os imigrantes fossem uma grande família e nós, como leitores, temos acesso a todas as versões da tristeza que essa grande família sentiu. Por causa disso, o livro parece mais uma história única do que vários contos separados e dá ao leitor a sensação de não abandonar nenhum personagem. Muitas vezes, quando lemos contos dos quais gostamos muito, temos a impressão de que falta algo. Mas quando cita personagens de um conto no outro, Zhang nos dá um pouco mais.

Um outro ponto que a autora aborda tão bem é o incômodo de lidar com uma liberdade nunca sentida que vem junto com preconceitos, exigências insanas para se encaixar e um questionamento constante de tudo o que se conhecia. Um novo Deus, uma nova língua, novos amigos.

Esse é o terceiro livro da autora, mas é o que mais chamou a atenção da crítica e do mercado editorial até o momento. E faz sentido. Zhang é extremamente talentosa, criando cenas vívidas com personagens multifacetados e verdadeiramente interessantes de acompanharmos juntando essa nova vida com lembranças da China de Mao – uma tentativa dos pais de não esquecerem suas raízes. Todos os contos são centrados em personagens femininas e jovens – crianças que vivem a experiência da imigração de uma maneira totalmente diferente da dos pais. Enquanto os pais sofrem com o novo ambiente, essas crianças tentam reconstruir seus próprios castelos ficcionais em um mundo novo e enfrentam desafios desconhecidos.

A autora também não foge da realidade de contar histórias que não são confortáveis – com imigrantes bons e ruins; com experiências das mais variadas. Um livro de conto do tipo difícil de largar.

O marido dela tinha dois empregos para sustentar a família e em um deles exigia que andasse de bicicleta pela chuva e pela neve para entregar comida chinesa na casa de brancos ricos que odiavam a gente, mas adoravam nossa comida e era por isso que precisávamos ir embora. (pág. 43)

Ela me disse que eu tinha tido sorte de morar na China naquele período de um ano e meio, os anos difíceis em que ela não sabia se queria viver ou morrer, e eu pensei que talvez, se eu tivesse tido sorte de verdade, teria uma mãe que não tivesse vontade de morrer…(pág. 106)

E de qualquer forma essa viagem não os transformou em turistas, pelo menos não nos turistas sobre os quais as pessoas que conheci em Stanford falavam; essa viagem só os transformou em imigrantes, os transformou em alvos de caridade. (pág. 168)

– Deus é dinheiro – um dia meu pai me disse, depois de bater a porta na cara das Testemunhas de Jeová.  – Deus é ter remédio na hora da doença, é quando o bebê tem a chance de chegar à vida adulta – ele falou cuspindo, do jeito que falava quando ficava de saco cheio da minha mãe. – O avô da sua mãe foi torturado. Aonde Deus tinha ido naquela época? Onde Deus estava quando torturaram aquele pobre velho? (pág. 215)

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O livro foi enviado pela editora.

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