Resenha – Cova 312
por Patricia
em 25/06/18

Nota:

Daniela Arbex virou um nome conhecido no mundo da literatura por sua obra “Holocausto Brasileiro” sobre a qual já falamos aqui no Poderoso em uma resenha e um revisitando. A obra é uma constante onda de terror mostrando que o Brasil tem muitos ratos em seu porão.

Não contente com expor esse momento trágico em nossa história, a jornalista mineira decidiu se jogar em outra empreitada focada em um outro momento tão ou mais deprimente: a ditadura militar.

Tal como aconteceu com Holocausto Brasileiro, tudo começou com uma matéria que Arbex estava desenvolvendo para o jornal Tribuna de Minas sobre pessoas da região que estavam na lista para receber indenizações determinadas pela Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura no período da ditadura. Arbex, que cobria assuntos relacionados a Direitos Humanos, decidiu pesquisar mais a fundo.

Foi assim que ela chegou à Penitenciária de Linhares que viria a ser um dos maiores presídios da ditadura. Ali, homens e mulheres considerados “rebeldes” foram presos e torturados, porém se tem notícia de apenas uma morte: a de Milton Soares de Castro em 1967, aos 26 anos. A morte foi marcada como suicídio. Ninguém acreditava, mas o corpo de Milton desapareceu e, portanto, uma revisão do caso não seria possível.

Arbex parte dessa história para primeiro escancarar o que foi Linhares. Ela narra a história de diversos presos – alguns desde antes da vida de militância – muitos desconhecidos até agora. Os momentos em que ela compartilha de como os presos sobreviviam através da música e conversavam em versos tirando forças para o impensável são extremamente tocantes.

Sua investigação a levou a Brasília, Minas, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro para tentar encontrar a verdade sobre a morte de Milton. Que ele não havia se suicidado, já se tinha uma idéia. Mas o que de fato aconteceu? Quem o matou? Quem encobriu o caso? O que fizeram com o corpo? Muito mais do que generalizar com termos como “foi a ditadura”, Arbex queria nomes e patentes. Até porque, não há lei de anistia que se aplique ao jornalismo.

Mesmo depois de entrevistar militares e militantes e decifrar o que, de fato, aconteceu com Milton, Arbex não conseguiu descobrir nada sobre o corpo. 50 anos já haviam se passado e muitos que estavam na sala quando o corpo de Milton foi liberado já haviam morrido também. Até que ela decidiu ir no Cemitério Municipal de Juiz de Fora  – que coincidentemente fica próximo do jornal em que travalhava – e descobriu que um homem de mesmo nome havia sido enterrado em uma cova rasa de número 312. Ligar os pontos daqui foi fácil.

Com seu trabalho e pesquisa, a jornalista conseguiu não apenas escancarar feridas da ditadura, como também fez com o governo alterasse a certidão de óbito de Milton dando sua causa de morte como homicídio. Pode parecer pouco 50 anos depois, mas é um ganho significativo em um país que teima em fingir que episódios tenebrosos como esse não aconteceram.

A escrita jornalística e o ritmo rápido da obra fazem com que a leitura de “Cova 312”, que venceu o Jabuti na categoria livro-reportagem em 2016, seja rápida ainda que dolorida e extremamente triste. Compreender o que fizemos uns com os outros naqueles anos, é sempre uma aula de História necessária mas muito difícil (ao menos para mim).

No prefácio, o também vencedor do Jabuti Laurentino Gomes, liga os tempos atuais – com a necessidade de renovação constante com as notícias superficias que lemos em portais de notícias – à importância fundamental do jornalismo investigativo, esse que exige “talento, experiência, tempo, dedicação, sendo de responsabilidade social e compromisso honesto e sincero com as necessidades dos leitores.” 

Longa vida ao jornalismo de verdade!

Vale a pena:

Entrevista Daniela Arbex ao Anti-cast

Entrevista ao Tribuna de Minas sobre o livro

 

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