Resenha – Dance of days: duas décadas na capital dos EUA
por Bruno Lisboa
em 08/09/16

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Houve um tempo, nem tão distante assim é verdade, em que a música não era taxada como mero entretenimento porque era um espelho dos movimentos sociais que lutavam e buscavam arduamente pela igualdade de direitos. O discurso visava, geralmente, o embate contra governos opressores ou até mesmo grupo extremistas e excludentes que, de alguma forma, prejudicavam o andamento da sociedade que clamava por paz e justiça. Um dos melhores registros do grande poder que emana a partir do alinhamento entre estas partes está presente em Dance of days: duas décadas na capital dos EUA.

Lançado em terras brasileiras pela Edições Ideal (editora especializada em livros que tem a música como tema central), a obra independente (como pede o figurino) é escrita pela dupla Mark Andersen (ativista social) e Mark Jenkins (jornalista) percorre durante 20 anos o movimento punk em Washington D.C, capital dos EUA.

Diferentemente da maioria das obras da seara musical que, geralmente, perpetuam olhares distanciados do objeto de estudo, em Dance of Days temos um retrato em minúcias que só quem acompanhou a cena in loco saberia descrever com tanta maestria. A narrativa se inicia em 1976, abordando os primórdios do movimento que, como todo e qualquer manifestação cultural, começara de maneira descentralizada, mas foi ganhando força, visibilidade, popularidade e organização com o decorrer do tempo até o seu derradeiro fim em 1996, ano em que o autor considera o fim da cultura do faça você mesmo devido à mercantilização desse movimento.        

Dividida em dois pontos de vista bastante pessoais, Jenkins e Andersen se responsabilizam pelos depoimentos e visões sobre a parte musical como também os movimentos sociais que agitavam a capital americana. O primeiro é responsável pelo abrangente olhar quanto a prolífica cena musical que surgia de maneira explosiva por toda a cidade. Por mais que atenção seja centrada nos passos perpetuados por figuras icônicas e influentes (como Ian MacKaye, a banda Bad Brains ou Kathleen Hanna do Bikini Kill), o autor cede espaço para inúmeras outras bandas (que nem cabe citar aqui, pois a lista é enorme) que, em sua maioria, já acabaram, mas fizeram parte e fomentaram os ideais revolucionários da cena. Já Andersen narra as ações da Positive Force, grupo ativista que trabalha até hoje junto a bandas locais em prol da conscientização da sociedade que clamava por mudanças estruturais na sociedade americana e conquistaram muitas delas.

Infelizmente, se observarmos os dias atuais, o que vemos é que as vozes da revolução, que antes obtinham grande exposição e lutavam arduamente para a exposição da sua verdade, foram gradualmente sendo retiradas do foco central devido aos valores da sociedade vigente que preza pelo hedonismo, pela omissão, neutralidade e que não é orientada a pensar e questionar.

Em tempos tenebrosos como nossos, onde golpes de estado políticos são celebrados cegamente por uma grande parcela da sociedade, livros como este Dance of Days podem (e devem) servir de exemplo para expor que sim é possível transformar a sociedade de forma positiva, transformando, como Andersen afirma no inspirador prefácio, “como é” em “como pode ser”.

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