Resenha de quadrinhos – O cidadão invisível
por Ragner
em 11/04/18

Nota:

 

O cidadão invisível é um quadrinho que tem o potencial de explicitar muito a realidade de milhares de cidadãos espalhados pelo Brasil. E o mais interessante é descobrir que houve uma intenção real e proposital para a realização dessa HQ. A partir da obra O cidadão de papel do jornalista Gilberto Dimenstein, com a participação de Ivan Jaf no roteiro e Eduardo Ferigato na ilustração, mais fotografias de Tuca Vieira, O cidadão invisível é um grandioso abrir de olhos.

Aqui nos deparamos com um conceito completamente desconsiderado por grande parte da população brasileira (e acredito até que de muitos outros países): a existência de uma parcela da sociedade que vive à margem. Vemos diariamente mendigos, sem teto e pessoas abandonadas nas ruas, mas só quando isso nos atinge diretamente, para o bem ou mal. Trombamos com muita gente que perambula pelas ruas, mas muitos deles são invisíveis para nós.

A realidade das ruas é pesada e muito cidadão não se importa, ou pouco se interessa, pelo que acontece com o outro. Muitos são aqueles que adoram se considerar “cidadão de bem”, mas o bem, pouco faz. Todos os envolvidos no quadrinho mostraram um pouco de como pode ser a vida de quem vive marginalizado. A história ilustra como é o dia a dia de um menino de rua, que passa invisível pelos outros e só é enxergado quando comete algum tipo de delito.

A HQ mostra como a falta de escolhas acertadas, quase nenhuma opção de socialização e difícil convívio em sociedade, pode gerar violência e agravar situações que por si só já são deveras complicadas e até agressivas. O cidadão invisível aqui é um garoto chamado Uélinton – conhecido na rua como Naco – que passa os dias tendo que escolher entre assaltar ou batalhar por uma vida melhor. E esse conflito diário é apresentado nesse quadrinho, com diversos momentos onde ele tem a opção de ter uma arma em mãos ou escutar amigos que desejam ajuda-lo a projetar uma vida melhor.

A invisibilidade destrói a perspectiva de cidadania, deixam as pessoas ressentidas com sua própria existência e contribui para um leque destrutivo de más decisões. O cidadão de papel versa sobre a infância, a adolescência e os Direitos Humanos e uma das passagens de O cidadão invisível esclarece que em nossa Constituição todo cidadão tem o direito de viver com dignidade e ainda apresenta os princípios da Declaração Universal dos Direitos da Criança

“Direito à igualdade, sem distinção de raça, religião…”

“Direito à proteção…”

“…a um nome…”

“…à alimentação, moradia e assistência médica…”

“…à educação dos deficiente…”

“…amor e compreensão…”

“…educação gratuita e lazer…”

“…a ser socorrido em primeiro lugar…”

“…ser protegido contra abandono e exploração no trabalho…”

“…solidariedade, amizade e justiça…”

E tudo isso me faz pensar no quanto o povo desconhece seus direitos e o que deveríamos saber de verdade, já que há muita gente que considera os Direitos Humanos como uma lei que protege bandido e suas ações criminosas.

A HQ possui muitas fotos que mostram becos e ruas, e textos que falam de cidadania, diferenças entre classes sociais, como nos conectamos e navegamos na internet e até como se desenvolve a atividade cultural entre os brasileiros (o autor apresenta uma estatística de 2010, que aponta uma média de 4,7 livros lidos por pessoa por ano no Brasil). E nas duas últimas páginas ainda temos uma fala sobre consumismo e o quanto vale o dinheiro.

O cidadão invisível é uma HQ que merece ser lida e compartilhada com os que vivem cercados de privilégios, na tentativa de acabar ou diminuir a invisibilidade que mata muitos por aí.

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