Resenha – Depois da queda
por Patricia
em 07/05/18

Nota:

 

“Numa terça-feira de maio, no trigésimo quinto ano da sua vida, Rachel matou o marido com um tiro.”

Assim começa a obra mais recente de Dennis Lehane – conhecido por obras que foram adaptadas para o cinema como Medo da verdade, primeiro filme dirigido por Ben Affleck; Sobre meninos e lobos, filme estrelado por Sean Penn ou Ilha do Medo estrelado por Leonardo DiCaprio e dirigido por Scorsese.

Rachel Childs teve uma infância complicada. Sua mãe, uma psicóloga que publicou um livro sobre relacionamentos que se tornou um best-seller. Em casa, a situação é desesperadora: Rachel implora à mãe que lhe diga o nome de seu pai que a abandonou quando ela tinha 3 anos, mas sua mãe guarda o segredo a 7 chaves agindo como se este segredo protegesse a ambas de algo terrível. Um segredo que marca tudo na vida de Rachel até a morte da mãe.

Sozinha, ela tenta encontrar algum vestígio de seu pai, sem muito sucesso. Ela se forma e começa a trabalhar como jornalista criando uma carreira com certo reconhecimento. É ai que ela atrai o Dr. Félix, um ginecologista que afirma que foi o médico responsável pelo seu nascimento e conhecia sua mãe…..e seu pai.

Desesperada por qualquer informação, Rachel se encontra com o Dr. Félix que, tal como sua mãe, promete revelar o nome do pai só depois que ela aceitar escrever uma matéria defendendo-o de mulheres que o acusam de estupro nos anos em que ele as atendeu. Ele entrega fichas e mais fichas de coisas negativas sobre as mulheres esperando que ao mostrar ao mundo “quem elas são de verdade”, ele conseguiria uma defesa justa para sua “inocência”. Lendo os artigos e pesquisando sobre o caso, Rachel se convence de que ele é culpado e escreve um artigo que visa expor a história toda no jornal de prestígio no qual trabalha agora. Com isso ela convence-o a dizer o nome de seu pai – em troca de destruir o artigo. De posse dessa informação, Rachel buscará o homem do qual se lembra muito pouco, mas do qual espera algo que não sabe o que é ainda.

Em uma matéria crucial para sua carreira, filmada no Haiti pós-terremoto, ela se vê cara a cara com o mal e questiona tudo o que conhece. Ela tem um colapso nervoso que afeta tudo, mas principalmente sua carreira e seu casamento. Uma vida cheia de altos e baixos, Rachel chega aos 30 e poucos anos desempregada, divorciada e sem família. Ela busca sentido no mundo, mas raramente consegue encontrar mais do que confusão.

Brian Delacroix entra na vida de Rachel de maneiras bem singelas durante todo esse período, mas de maneira definitiva quando ela está em um de seus piores dias. E daqui adiante, tudo vai mudar. Primeiro para muito melhor. Depois para um completo fiasco.

Em Rachel temos uma protagonista completa: complicada, problemática, difícil, cheia de traumas e, ainda assim, resistente. Apesar de seus problemas serem específicos, é fácil de compreender e simpatizar com suas dores e crises. É com essa simpatia que Lehane conta para levar o leitor na jornada que é Depois da queda. O livro tem um ritmo frenético de leitura, sugando o leitor para as páginas enquanto nos damos conta de que não temos a mínima ideia do que pode acontecer….até mais ou menos a metade do livro. Quando a frase que postei lá em cima se consolida, parece que outra história começa.

Se até esse ponto o ritmo é frenético e é quase impossível largar o livro, nesta “nova história”, os personagens perdem um pouco da construção criteriosa e bem feita e passam a ser parte de um enredo estranho, por falta de palavra melhor. Na busca por trazer algo totalmente impensável para o plot-twist, o autor acaba por criar um roteiro quase infantil feito para o cinema tamanha a previsibilidade (talvez buscando mais uma adaptação cinematográfica?)

Que Lehane é um bom autor, não se pode negar. Mas o que Depois da queda mostra é que nem mesmo um grande autor está imune de deslizar na busca por surpreender o leitor.

***

O livro foi enviado pela editora. 

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