Resenha – Deus ajude essa criança
por Patricia
em 05/12/18

Nota:

Minha primeira experiência com Toni Morrison – vencedora do Nobel de literatura – foi com a obra “Voltar para casa” – já resenhada aqui no Poderoso. Não foi uma iniciação das mais alegres, mas decidi tentar mais uma vez, afinal a autora é bem-quista e bem recomendada. Portanto, “Deus ajude essa criança” foi essa segunda chance para ver se eu e a autora nos daríamos bem.

O mote central da maioria das obras de Morrison é raça. Nesta obra, lançada nos Estados Unidos em 2015 e no Brasil em Julho de 2018 pela Companhia das Letras, Morrison nos apresenta a uma mãe que acaba de parir uma criança mais escura que a noite. Como nem ela, nem o marido têm o tom da pele tão escuros, ambos ficam desconcertados com o tom da pele da criança. O marido acredita que a mulher o traiu e, por isso, a menina não é dele e decide abandonar a família. Lula Ann, a criança e Mel, a mãe, ficam sozinhas lançadas à própria sorte.

Como mãe é mãe, Mel fica com Lula Ann e cria a menina como pode, não sem demonstrar mais vezes do que o necessário o seu desgosto com a menina. Lula Ann internaliza isso de uma maneira muito específica – desde cedo ela percebe que seu tom de pele é o que a faz se destacar – para o bem ou para o mal. Mais velha, ela irá usar apenas roupas em tons de branco para ressaltar sua pele como uma “pantera na neve”. O empoderamento de Lula Ann, porém, passa por um trauma intenso criando um afastamento quase permanente entre ela e a mãe. Também entre Lula Ann e suas raízes.

Aos vinte e poucos anos, ela se torna gerente de uma empresa de cosméticos e está se preparando para lançar sua própria linha de maquiagem com tons para peles escuras. Ela também mudou de nome e agora atende por Bride. Ela tem um relacionamento com Booker – um jovem com quem ela divide a cama e nada mais. Bride guarda um segredo e Booker também.

Quando Booker desaparece, Bride decide procurá-lo e ao entrar na pequena cidade na qual ele está vivendo, algo acontece com seu corpo e ela começa a perder curvas parecendo cada vez mais uma criança. Parece que ela precisa expiar um pecado que mudou totalmente a vida de uma pessoa anos antes e, assim, se libertar da mentira que carrega.

A história é bem contruída em uma narrativa que flui bem e envolve personagens que são, de fato, interessantes. A questão de raça que parece tão presente no começo, deixa de ser o centro da conversa à medida que a historia evolui para a mentira de Bride e de Booker. A discussão sobre maternidade e família é bem pungente e mostra como as pessoas podem carregar isso para a vida toda. Mudar de nome e atitude, nem sempre esconde tudo o que aconteceu no passado, mas não deixa de ser uma tentativa de se reinventar. Além disso, há uma conversa sobre abuso infantil tratada de maneira relativamente superficial. E, mais, parece que todas as personagens da história conhecem uma criança que passou, ou passaram, eles mesmos, por algum tipo de abuso. O problema com isso, em essência, é que a história se torna previsível a partir de certo ponto e caímos um mar de clichês.

Ainda assim, foi uma experiência melhor que “Voltar para casa” e tenho interesse em ler mais da autora, inclusive suas duas obras mais aclamadas: “Amada” e “O olho mais azul”.

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Livro enviado pela editora.

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