Resenha – Devoção
por Juliana Costa Cunha
em 28/05/18

Nota:

Começo esta resenha afirmando o quanto será difícil escrever as próximas linhas. Eu sou fã de Patti Smith. Eu sonho em assistir a um show dela, assim como sonhei a vida inteira ver David Bowie no palco (infelizmente não deu). Se David Bowie era o camaleão que sempre me espantava com sua androgenia e mudança de ritmos, performances, roupas… Patti é a busca por uma forma de expressão artística linear. Nela encontramos uma forma de arte coesa, emotiva e recheada de referências ao passado. Sua obra é memória afetiva, seja na música ou nos livros.

Aqui no Poderoso já fizemos resenha de seus livros publicados no Brasil. A Paty com Só Garotos e Linha M. E o Bruno com Linha M. Recentemente a TAG Livros, em parceria com a Cia das Letras, nos presenteou com a tradução exclusiva de Devoção, o mais novo livro da artista. A tradução é do Caetano W. Galindo e por enquanto só está disponível aos associados da TAG. Mas acredito que em breve será lançado pela Editora.

Em Devoção nos deparamos com três textos, dois ensaios e um conto (que dá título ao livro). No primeiro ensaio temos as já tradicionais memórias afetivas de Patti, sendo narradas durante uma viagem que a artista realizou a Paris. Acompanhamos suas andanças por Paris, as leituras que estava fazendo no momento da vigem, uma delas a autobiografia de Simone Weil, pela qual Patti vai desenvolvendo uma enorme afeição e curiosidade, levando-a a visitar seu túmulo. Acompanhamos sua rotina de lançamento do livro e suas noites no hotel dormindo em horários inusitados e acordando com a televisão ligada para se emocionar muito com a apresentação de uma patinadora.

É neste ponto que ela nos apresenta o conto Devoção. Depois desta súbita inspiração ao acordar em hora inserta e se deparar com a beleza dos gestos de uma menina que patinava no gelo.  E aqui Patti nos faz sair da leitura de suas memórias, para nos apresenta uma história criada a partir de suas memórias, mas ficcional.

No conto Devoção encontramos elementos de registro da autora no ensaio anterior. A personagem principal é uma patinadora. Eugênia é o nome dela. E ela é uma solitária por natureza, que tem na patinação sua devoção. Há o envolvimento de Eugênia, que tem 16 anos, com um homem bem mais velho.

Confesso que este aspecto da história me causou incômodos. O fato de ser uma adolescente com um homem mais velho, o fato dela pensar que estando com ele poderia se dedicar mais à sua devoção, e o fato dele ir tirando tudo isso dela (inclusive seu nome, pois passou a lhe chamar de Filadélfia), até que ela se desse conta disso e tomasse uma atitude. Mas, mesmo com o incomodo que esta história me causou, entendi a proposta da autora e o contexto.

No ensaio final do livro, Patti nos conta o momento em que visitou a casa do escritor Albert Camus e sua emoção. Durante a visita ela tem oportunidade de pernoitar no quarto do autor e observar a paisagem de sua janela, seus móveis, seus utensílios. Também mantém uma longa conversa com a filha de Camus e o enorme privilégio de manusear o último manuscrito escrito pelo autor.

Fica muito explícito ao longo dos textos deste livro a devoção de Patti Smitth pela escrita e pelo fazer literário. É muito bonito como em todas as horas e ações de sua vida ela vai colhendo elementos que são base para suas obras, seja na música ou na literatura. É fato que a artista tem o hábito da escrita de diários desde sempre. Fico toda emocionada só em pensar na publicação destes diários. Que obviamente não relaciono com a sua morte. Imagina o tanto de anotações que não existem?! Imagina o tanto de referências que vamos encontrar neles?! Imagina!

 

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