Resenha – Dias de abandono
por Patricia
em 08/03/18

Nota:

Elena Ferrante, umas das autoras contemporâneas mais interessantes, já passou pelo Poderoso com o primeiro volume da série Napolitana – A amiga genial – e com A filha perdida. 

Em “Dias de abandono”, conhecemos Olga. Mãe de duas crianças pequenas e casada com Mario. Depois de 15 anos de casamento, Mario decide que não quer continuar no relacionamento. Ele, com muita calma, explica que não tem mais vontade de estar casado com ela e que quer se separar. Do nada, sem nenhum sinal de que havia algo errado ou sem nenhuma indicação de que suas vontades iam por esse caminho.

A falta de transparência e de honestidade joga Olga em um turbilhão que ela passará a lutar para sair. Enquanto busca entender sua atual situação, Olga também começa a reavaliar toda sua vida. Aos 38 anos, ela está sozinha com dois filhos, um cachorro e sem emprego. Ela havia abandonado as intenções de se tornar escritora porque Mario não apoiava muito e as crianças precisavam de atenção. Ela percebe que sempre teve que deixar um pedaço de si para trás em nome de uma família que não existia mais. Seus sacrifícios pessoais agora não valiam mais nada e, pior, ela tinha pouco para seguir adiante. Mario seguiu sua vida sem nenhuma turbulência, deixando para ela cuidar de tudo o que restou.

O mote de “Dias de abandono” é clichê, se pensarmos. Um homem que abandona a esposa de 15 anos para ficar com uma mulher com metade da sua idade. E ainda assim, Ferrante consegue nos apresentar algo que parece novo. A autora nos entrega aquilo que a tornou conhecida: uma história profundamente feminina em que a personagem central é heroína e vilã ao mesmo tempo. O leitor, que enxerga tudo de fora, passa a torcer contra e a favor de Olga quase sem querer desaprovando algumas ações e tentando guiá-la de volta ao caminho certo. É realmente impressionante o quanto Ferrante consegue fazer com que o leitor invista tanto de si mesmo na leitura. Me peguei rindo de certas cenas e balançando a cabeça em desaprovação de outras. Às vezes fiquei com vontade de chamar Olga para uma conversa. Outros de gritar para ela parar de agir de determinada maneira.

Temos essa necessidade de classificar esse tipo de mulher como “louca” ou “coitada”. Ferrante ressalta isso também ao fazer Olga se lembrar de como a amiga de sua mãe falavam de uma mulher que teve esse destino. O paralelo entre ambas é fácil. A própria Olga começa a entender melhor o cenário no qual aquela mulher foi jogada contra sua vontade. Além de carregar todo o trauma que tinha, ainda ficou marcada pelas outras mulheres.

Olga jura que não será essa mulher e acompanhamos sua luta interna para tentar se reerguer. Colocar o leitor para acompanhar o ponto de vista de Olga, e apenas este, nos mostra a perspectiva de quem, raramente, tem seu ponto de vista contado com tanta claridade. Quando pensamos na mulher que é deixada para trás, quem realmente sabe o que essa mulher passou? Quem se preocupa em entender, se ela está agindo de maneira estranha, seus motivos? Como sabemos de verdade o que acontece quando alguém toma tudo o que uma pessoa conhece porque quer seguir um caminho diferente?

“Dias de abandono” é um livro curto, de leitura relativamente rápida. Mas no melhor estilo “Ferrante” a história ainda permanece conosco por um tempo nos fazendo questionar tudo o que ouvimos desde sempre sobre casos assim. Um livro primoroso que começa e termina no tempo certo, sem se alongar demais e salvando o leitor – e Olga – quando mais precisamos. Uma Ferrante em sua melhor forma.

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