Resenha – Dicionário da escravidão e liberdade
por Bruno Lisboa
em 10/09/18

Nota:

Em entrevista recente ao Roda Viva o pré-candidato a presidência, Jair Bolsonaro, deu a seguinte declaração polêmica quando perguntado sobre o sistema de cotas implantado no Brasil: “Por que cotas? O Brasil não tem dívida histórica com a escravidão”. E ainda: “Que dívida é essa meu Deus do céu. Um negro não é melhor do que eu, nem eu sou melhor do que ele”. Segundo ele os portugueses “nem pisaram na África. Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.

Pensamentos errôneos como os acima proferidos são cada vez mais comuns no ideário de muitas pessoas que preferem distorcer a própria história da humanidade, do que aceitar os fatos. A mídia, que deveria ter problematizado o assunto, o fez de forma rasteira. Mas, ainda bem que existentem obras como Dicionário da Escravidão e Liberdade para provar o quão o “mito” está errado.

Organizado por Lilia M. Schawarcz e Flávio Gomes, a obra faz um apanhado histórico da escravidão que completou, em 2018, 130 anos de extinção. Distribuído em 50 verbetes escritos por autores diversos, cada um é disposto em ordem alfabética, de acordo com o título do tema a ser exposto. Por mais que o sentimento de unidade ou linearidade seja difícil neste formato, tal escolha não impede que leitor deguste a leitura.

De maneira multifacetada, cada um dos capítulos traz à tona riquíssimas análises ligadas aos mais variados temas como a cultura, a religião, economia e a geografia da época, por exemplo. Isto somada a grande galeria de imagens (composta por pinturas, matérias jornalísticas e fotos) que ajudam, e muito, a vislumbrar como o mundo era entre os séculos XV ao XIX.

Num mundo ideal, onde a educação seria de fato interdisciplinar e não como no formato atual multidisciplinar, obras como Dicionário da Escravidão e Liberdade poderiam servir de suporte para promover este o diálogo, pois é fácil visualizar aqui como disciplinas como a Geografia, a Matemática, Artes, a área de Linguagens (de modo geral), a História (obviamente), a Filosofia e a Sociologia podem trabalhar de forma integrada.

Outro fator de grande relevância da obra é que a mesma prova que grande parte do cenário de desigualdade racial em que vivemos é, em sua maioria, uma malfadada herança deste período e, de forma teimosa, persiste no ideário da população.

Em tempos duros e frios como os que estamos visualizando, no qual muitos procuram descontextualizar manchas históricas da humanidade, como a da escravidão, dizendo absurdos como os ditos no primeiro parágrafo do texto, o Dicionário da Escravidão e Liberdade é um importante e profundo registro.

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O livro foi enviado pela editora.

 

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