Resenha – Divergente
por Patricia
em 15/04/14

Nota:

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Mais um mês, mais um desafio. Hoje falo do livro que é a hype do momento graças a estréia do filme: Divergente. O livro é um YA de sucesso escrito pela iniciante Veronica Roth (de 25 anos. Isso mesmo, leitor com mais de 25 anos. Vinte e cinco..2.5….VIN-TE E CIN-CO). O sucesso foi tanto que o primeiro volume da trilogia saiu em 2011, em 2012 os direitos cinematográficos foram comprados e o filme está previsto para estrear no Brasil em 17 de Abril.

Peguei o livro sem saber muita coisa sobre a história, porque quando um livro está no olho do furacão, eu evito ativamente ler ou ficar ouvindo muita coisa sobre porque acho que isso pode afetar minha opinião. Então deixo o bafafá passar um pouco e aí me dou a chance de saber se é tudo isso aí que estão falando.

Divergente nos conta a história de Beatrice – uma jovem de 16 anos que vive na facção da Abnegação. O mundo estava em guerra e, para acalmar as coisas, decidiu-se dividir as pessoas em facções para tentar manter a paz. São 5: Franqueza, Erudição, Audácia, Amizade e a, já citada, Abnegação. Cada uma delas ressalta uma qualidade de seus membros (acredito que os nomes falam por si só). A organização da sociedade, portanto, se dá baseada na qualidade principal de cada grupo. Exemplo: os membros da Abnegação tendem a ocupar cargos públicos, já que acredita-se que seu altruísmo os torna imunes a corrupção.

Aos 16 anos, todos devem escolher a qual facção vão pertencer. O natural é cada um fique onde nasceu (quase como um sistema de castas), mas há a possibilidade de chocar a sociedade e ir para outra facção. Divergentes é como são chamados aqueles que têm mais opções depois de um teste de aptidão nada comum. Ser divergente, como a palavra mesmo implica, não é nada bom nesse contexto.

Acredito que não seja spoiler dizer, a essa altura do campeonato, que Beatrice é uma Divergente e que, apesar de ter nascido e vivido na Abnegação, ela vai sair dali. Em sua nova facção, ela vai conhecer um grupo completamente diferente de pessoas. Entre eles está o treinador enigmático Quatro e mais um grupo de novos amigos….e inimigos.

A questão é a seguinte: as facções foram organizadas para que a guerra acabasse, mas agora uma facção ataca a outra, ainda que apenas ideologicamente (no começo). Erudição e Abnegação estão em pé de guerra pois os eruditos querem o poder – e já corromperam o ideal de utilizar a inteligência para o bem comum. Audácia afastou-se de seu compromisso basilar de ser uma facção de defesa para ensinar a seus membros que coragem é o mesmo que tendências suicidas. Eles estimulam a violência mais do que a proteção. Ou seja, os homens estão destruindo todas as bases criadas para evitar que eles destruíssem todas as bases que existiam antes. A humanidade é realmente um animal divertido. ¬¬

Toda distopia que se preze carrega em seu gene uma crítica à sociedade. Isso é bem claro em outro YA de sucesso no momento, Jogos Vorazes. Já Fahrenheit 451 também traz uma crítica profunda sobre como a sociedade avalia (ou destrói) a cultura, a informação e os relacionamentos interpessoais. São componentes claros e que não ficam subentendidos no enredo. De fato, o cenário criado chega a ser quase factível (apesar de ser ambientado no futuro). A questão das distopias é que elas funcionam quase como um aviso: “se isso continuar assim, podemos chegar nesse ponto aqui. E não vai ser bonito.” Pois bem.

Em comparação, achei a crítica de Divergente bem fraca. Primeiro que chamam de democrático (a palavra aparece mais uma de vez) um processo em que te deixam escolher uma facção, mas se você sai de onde sempre esteve, você é considerado um traidor. Segundo que o mundo distópico é bem mal explicado. O problema que as pessoas tiveram foi com o sistema? Uns com os outros? O que aconteceu que as pessoas se separaram ao invés de se unirem? Qual é a crítica exatamente, o sistema é ruim ou a humanidade é péssima e não tem o que fazer? E, vamos combinar que unir as pessoas por características como as citadas nas facções é algo bem leviano. Ninguém é uma coisa só. Estava óbvio que não ia dar certo. Nesse sentido, o enredo ficou bem previsível e solto. Se ninguém é uma coisa só, porque ser divergente é ruim? Teoricamente, todos seriam divergentes em algum ponto. Exigir concordância sem questionamento é ditatorial, não democrático.

Li em algum lugar que a trilogia fala dos perigos da conformidade. Sinceramente, não vi muito isso nesse primeiro volume. Talvez no segundo isso fique mais claro? Veremos.

Já quanto às personagens, gostei. Acho que Beatrice é uma boa protagonista porque ela não é perfeita. Pelo contrário. Ela engloba, muitas vezes, a maioria das imperfeições humanas e chega a gostar disso – provando que há algumas camadas ali. Quatro tem uma história convincente e que liga alguns pontos do enredo. Jeanine é uma escolha interessante para a ser a pessoa que faz o que faz (sem spoilers!)…enfim, o livro tem bons personagens em um enredo razoável, mas mal conduzido. Poderia ter menos páginas sem perder nada.

No geral, se considerarmos que é o primeiro livro de Roth, é uma estréia relativamente sólida. Lerei o restante da série com expectativas pelo que vem por aí.

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2 Comentários em “Resenha – Divergente”


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Marília Barros em 21.04.2014 às 21:39 Responder

Também li Divergente para o DL do Tigre e concordo bastante com a sua resenha. Acho que a história por trás da sociedade distópica mal explicada e a crítica que vejo, sobre pessoas botando outras em padrões, um pouco simples demais (é só pensar em tantos livros adolescentes que acabam com esses estereótipos sem precisar de uma distopia para isso).
Mas achei interessante essa coisa dos perigos da conformidade. Eu entendi que pouca gente é divergente porque vivendo nessa sociedade por tanto tempo, eles meio que fossem entrando em padrões, já que gostariam de participar de um grupo. A pessoa faz o teste de aptidão já tendo feito uma escolha, então por mais que ela obviamente tenha mais de uma característica, não é isso que ela quer mostrar para os outros. Seriam poucos que não se importariam tanto com as facções, ou que veriam um problema nisso, por isso são poucos os divergentes, que não se conformam. Pensando assim, o final do livro e toda a “rebeldia” dos divergentes faz bastante sentido e pode até ser uma metáfora. Essa é a minha teoria, mas eu tenho a impressão, pelo que sei dos outros livros, de que a história vai por outro caminho…

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Paty em 22.04.2014 às 07:58 Responder

Eu confesso que não sei nada sobre os outros livros. Fica claro que vai ter uma guerra, mas não consigo nem imaginar no que vai dar, para ser sincera. Eu acho que se a trilogia focar mesmo nos perigos da conformidade, pode ser realmente aquele caso de começar mais ou menos e ir ganhando força. Estou naquela de ‘ler ou não ler’ os outros livros. Acho que vou ler mas não vai ser por agora. rs


 

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