Resenha – E se eu fosse puta
por Juliana Costa Cunha
em 04/02/19

Nota:

Amara Moira. Travesti. Puta. Feminista. Escritora. Professora. Doutora em crítica literária pela Unicamp, defendendo sua tese em fevereiro de 2018, sob o título “A indeterminação de sentidos no Ulysses de James Joyce”.

Primeira pessoa transgênero a utilizar nome social na Unicamp para defender sua tese de doutorado e uma das primeiras travestis a ser chamada para uma banca de defesa de doutorado no país. Atualmente Amara não precisa mais usar o nome social, pois alterou toda sua documentação, sendo oficialmente a Srª Amara. Eu tive o prazer de conhecer esta mulher, e digo a vocês que ela está só começando.

Há quem  desconsidere essa história. Há quem deslegitime tudo isso. Mas o fato real e maravilhoso é que sim, pessoas trans estão acessando as universidades, se graduando, tornando-se mestras e doutoras. E que assim continue!

Até ter o título de Doutora em mãos, Amara enfrentou todas as adversidades vivenciadas pela maioria desta população, quando se assumem transgêneros e resolvem assumir suas identidades. Uma das fases de sua vida enquanto travesti, ainda nos momentos iniciais de sua transição, constituem os relatos deste livro.

O livro “E se eu fosse puta”, é o resultado do blog (http://www.eseeufosseputa.com.br/) criado por Amara para relatar suas experiências na prostituição. Nele encontramos os relatos de suas dúvidas sobre se inserir neste meio de trabalho para conseguir pagar suas contas e, também, ter prazer. Relata como foi julgada por muitas de suas amigas, as que afirmavam que “prostituição jamais!”, algumas deixando até de falar com ela quando tomou tal decisão.

Nos relatos iniciais, temos uma Amara nova, ainda com pouco uso de hormônios, comprando roupas no crediário para pagar em 12 prestações e enfrentando todos os medos que devem permear as pessoas que decidem ou escolhem fazer da prostituição o seu ganha pão.

E o que começa com relatos super sensuais e sexualizados, de descoberta de prazeres antes não vivenciados por ela e da possibilidade de voltar para casa com grana no bolso e conseguir se manter na cidade, ao longo do livro vai se transformando na percepção de tristezas, riscos e diversas violências sofridas a cada cliente. É interessante como ela vai apresentando essa mudança na percepção das coisas que vão acontecendo. E como também ela vai percebendo o quanto estas violências são naturalizadas pelas demais colegas de rua.

O livro tem como páginas iniciais textos da Laerte referenciados com as suas tirinhas da Muriel, personagem que foi descobrindo-se trans junto com sua criadora (ou será o contrário?). E conta com prefácio e posfácio de Indianara Alves Siqueira e Monique Prada, segundo a própria Amara “duas das putasfeministas mais importantes que eu já conheci”.

E se eu fosse puta é um livro importante. Nos faz pensar, rir, chorar, ter nojo, raiva, empatia. Nos faz pensar nas pessoas trans que têm na prostituição, em sua grande maioria, o único espaço para ganhar a vida e conseguir um pouco de afeto. Lugar onde podem ser vistas, notadas, desejadas. Mesmo que pagas (ou mal pagas).

 

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