Resenha – Em casa com Nabokov
por Patricia
em 09/03/15

Nota:

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Quem já passeia por este blog há algum tempo sabe que sou uma grande fã de Nabokov. Não perco a chance de ler coisa do autor e sobre ele. Por isso, “Em casa com Nabokov” chamou minha atenção. Imaginei que seria algo como alguém passando pela experiência de ler Nabokov e gosto muito de ler sobre esse tipo de coisa. (A saber: não leio sinopses antes de ler um livro).

Pois bem. “Em casa com Nabokov” não tem nada a ver com ler Nabokov de verdade. A história é centrada em Barbara – recém divorciada e, basicamente, sem muitas aspirações na vida. O marido ganhou a guarda dos dois filhos que ela vê apenas uma vez por mês e a namorada nova dele é, também, a agente social que avalia o caso deles. Desde que os filhos nasceram ela se tornou dona de casa e, por isso, não consegue empregos com salários maiores para se manter em um nível confortável.

Obrigada a mudar-se para a cidade natal do marido para ficar próxima dos filhos, ela acaba morando em uma casa simples onde, acredita-se, há algum tempo viveu ninguém menos que Vladimir Nabokov e sua esposa Vera. Uma tarde, ela encontra um manuscrito que acredita ser do renomado autor, apesar de não estar assinado. O manuscrito é o estopim para Bárbara repensar diversas coisas em sua vida. Inclusive o fundo do poço de auto-piedade em que ela parece viver nas primeiras 100 páginas do livro.

Esse foi um livro que demorou para decolar e, pela primeira vez em muito tempo, considerei largar um livro a cada 20 páginas em que nada acontecia. Nada, absolutamente nada. Se você quer ler esse livro, aviso desde já que terá que ser paciente e firme. E, provavelmente, sua cabeça vai doer um pouco.

Se houve uma tentativa por parte da autora de incorporar um tema “polêmico” tal como Nabokov sempre consegue com maestria, ela falhou miseravelmente. Apesar de render algumas cenas engraçadas, uma mulher administrando um bordel para mulheres não é lá tão polêmico assim. E nem isso conseguiu dar ritmo e gerar mais interesse pela história.

Cada página virada me irritava mais, para ser sincera. Ao terminar o livro senti que os comentários colocados na quarta capa eram extremamente enganosos. Não conseguia acreditar que tinham dito o que disseram sobre esse livro. Então, para tentar dar algum sentido à tudo isso, resolvi dividir os comentários “profissionais” com vocês. Aqui estão os comentários que aparecem na contra capa do livro:

“Daniels é terreamente cômica e audaciosa nessa combinação astuta e atrevida de família, drama, discórdia entre os sexos, cura sexual e alta literatura.” [Booklist] – Alta literatura é forçado. Se a comparação óbvia aqui é com Nabokov, já que a própria autora o cita no texto e no título do livro, Daniels perde de lavada. Se fosse a Copa, ela seria o Irã.

“Uma das heroínas mais sedutoras e sarcásticas da ficção contemporânea. Vá em frente, arrisque. Você vai amar essa mulher – e esse livro.” [Dorothy Allison – autora de Bastard out of Carolina] – Claramente, Dorothy não é nossa amiga. Dorothy usa palavras como heroína e sarcasmo sabendo muito bem que nada disso faz muito sentido quando você lê o livro. Barb não conseguiu ganhar minha simpatia nem quando começou a, efetivamente, mudar as coisas para si mesma. Continuou sendo bem chata. Eu a imagino como uma mulher caída, em todos os sentidos.

“Não há uma única nota falsa ou frase chata nesse livro surpreendente, comovente, sexy e muito, muito engraçado….Uma daquelas histórias que o faz desejar encontrar todos os personagens para um chá.” [Jeffrey Kluger – co-autor de Apollo 13]….e envenená-los. Ainda estou tentando entender o que seriam essas “notas falsas”. Claramente isso aqui é um “Bingo de palavras para contra-capas”. Me parece até que o autor nem leu o livro. Surpreendente? Sexy? MUITO engraçado? Valeria uma reclamação por propaganda enganosa. Não achei nada disso no livro.

Se você quer ler um chick lits engraçados, recomendo Marian Keyes. Ela escreve bem, cria bons personagens em situações inusitadas e não finge que escreve nada menos do que realmente escreve: chick lits divertidos.

Mas quero dizer que a Leslie Daniels sabe escrever. Isso é claro. Ela só não tem uma imaginação muito fértil e é prolixa em alguns momentos. Uma revisão melhor, cortando algumas cenas, talvez rendesse algum ritmo a momentos bem desinteressantes. Fechei o livro tentando entender o que diabos eu tinha acabado de ler, com uma sensação forte de que não valeu a pena e aliviada por ter terminado.

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4 Comentários em “Resenha – Em casa com Nabokov”


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Gabriel em 09.03.2015 às 11:41 Responder

Olha, não sei se o livro é realmente engraçado, mas a sua resenha ficou, hahaha… dá pra ver a sua revolta em cada frase. Muito bom! Curti a ideia de revisar os comentários profissionais também, haha

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Patricia em 10.03.2015 às 07:08 Responder

Bom…pelo menos que renda uma resenha engraçada….hahahaha. 😀

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Fillipe em 02.07.2018 às 23:40 Responder

Eu amei a leitura do livro, lembro que o li em 2015, e acredito que possa até ter lido a sua resenha, pois costumo ver a analise do pessoal a cerca da leitura. Eu gostei do livro, achei ele engraçado, a leitura é um pouco boba, mas as vezes é bom uma leitura mais leve, o que acontece é que alguns textos não estão a altura de pessoas que são cultas demais.

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Patricia em 04.07.2018 às 11:43 Responder

Eu nem diria que sou culta demais. E concordo que às vezes ler algo leve é importante (até para limpar a cabeça). Só não achei esse livro em particular bom. Leve sim, mas não bom. Mas a coisa realmente boa é que a leitura é algo pessoal e cada um sente a história de um jeito. 🙂


 

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