Resenha – Enclausurado
por Bruno Lisboa
em 06/12/16

Nota:

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René Descartes e John Locke foram filósofos responsáveis por propagar e relativizar um dos maiores embates ideológicos do século XVII, mas que ainda dizem muito a respeito de nossos tempos: o racionalismo e o empirismo. Para Locke, partidário da segunda linha, o saber empírico se adquire a partir do nascimento e da experiência vivida. Nesse sentido, a mente para ele é uma página em branco – a chamada tabula rasa. Já Descartes defendia que algumas ideias/conhecimentos são advindos desde a gestação, isto é, não são adquiridos ou aprendidos. A partir dessa ideia, René pontuou que o saber já está na concepção, ou seja, o bebê antes do nascimento já tem preconcepções presentes no DNA de seus pais. Mas porquê utilizar deste breve embate ideológico para iniciar esta resenha? –  você deve estar se perguntando. Simples! Saber disso já ajuda entender mais Enclausurado.

Escrito por Ian McEwan, celebrado escritor britânico autor do clássico da literatura moderno Reparação (já resenhado aqui), Enclausurado nada mais é que um registro semi-panfletário da teoria de Descartes, pois o narrador da obra em questão é um bebê prestes a nascer.

Dotada de ares fantásticos e shakespearianos (Hamlet é a referência), a história gira em torno da visão de mundo de um feto (com 9 meses de gestação), mas que já detém sensibilidade aguçada, características herdadas dos pais (John um poeta e editor, Trudy uma antenada dona de casa). Mas a fase terna muda drasticamente de figura a partir do momento em que ele descobre que sua mãe tem um caso com o irmão de seu esposo (seu tio Claude) e ambos planejam matar John e venderem a casa onde moram.

Impiedoso e voraz, McEwan faz do seu protagonista o veículo para externar a podridão mundial contemporânea da vida real. A partir da audição de programas de rádio o bebê toma conhecimento do que lhe espera do lado de fora e já sabe sabe/sofre de antemão as agruras que viverá ao sair do casulo materno, num planeta dominado pelo caos causado em muito pela política, guerras, desastres ambientais e a violência. A figura de Claude, o amante/tio, também serve de referência para criticar o tradicional cidadão inglês que é racista, homofóbico e xenófobo.

Tal como Memorarias póstumas de Brás Cubas, obra de Machado de Assis que tem um morto como narrador, Enclausurado tem um protagonista inusitado, mas utilizando de boas doses de ironia e humor consegue de maneira abrupta, veloz e precisa utilizar de um universo ficcional, mas que consegue dizer muito sobre nossos tempos.

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O livro foi enviado pela editora.

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