Resenha – Enterrem meu coração na curva do rio
por Patricia
em 28/10/13

Nota:

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Conheço muito pouco sobre a história dos indígenas americanos (e por americanos eu quero dizer das Américas como um todo). De suas origens até hoje, sei que os embates foram constantes e que em algumas regiões, continuam ocorrendo. Mas se me questionarem sobre guerras, origens, colonização, garanto que não vou saber dizer muito. Até hoje, nunca tinha pensado muito sobre o assunto, para ser sincera. E depois de ler Enterrem meu coração na curva do rio assumo isso com vergonha.

O livro retrata a luta que os indígenas norte-americanos – os que habitavam o território que viria a ser os Estados Unidos – travaram com os colonizadores para manterem os direitos de viver onde sempre viveram. Por mais de dois séculos, o velho Oeste norte-americano foi uma zona de guerra muito maior do que aquilo que vimos n filmes de bang-bang.

A verdade é que a colonização dos Estados Unidos passou por cima dos indígenas tanto quanto a nossa, talvez mais. Os relatos atestam que mesmo quando a paz era proposta, os americanos faziam com que durasse muito pouco. Diversos tratados foram assinados e devidamente ignorados cada vez que uma mina de ouro era descoberta ou uma ferrovia precisava ser construída.

Capítulo por capítulo, o autor nos apresenta a luta de uma tribo para seguir sua vida como sempre fizera, alheia à ganância do homem branco e ao espetáculo sangrento que certamente aconteceria se não concordassem em viver nas reservas destinadas a eles.

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O livro é claramente bem pesquisado. Acho que em alguns capítulos o que causa certa confusão é a quantidade de nomes diferentes que encontramos – tanto indígenas quando americanos. Muitas vezes, o autor passa por determinada situação com rapidez e fiquei um pouco confusa com quem fez o que, quando, onde e se o nome dele era Nuvem Vermelha ou Chaleira Preta. De qualquer maneira, é inegável o sentimento que o livro traz à tona: os indígenas norte-americanos agonizaram. E não foi uma agonia rápida.

Eles lutaram o quanto puderam e muitos desistiram quando perceberam que estavam em desvantagem em todos os sentidos – mas principalmente do ponto de vista armamentício. Pedras e flechas não poderiam competir com canhões e armas de fogo.

As estruturas das sociedade européias e indígenas não poderiam harmonizar-se. Os europeus já utilizavam o conceito de propriedade privada e, para os índios, isso não existia. O respeito que tinham pela terra em que viviam era o suficiente para preservá-la porque ela era de todos. Em 1885, Touro Sentado – talvez um dos mais famosos nomes indígenas de todos os tempos – escreveu uma carta ao então presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce. Na carta, é possível ver a dimensão que as guerras tomaram para os nativos (você pode encontrá-la na íntegra, em português, aqui).

A imagem do nativo, muito tempo depois, ainda era a de inimigo já que a História é sempre contada pelo lado vencedor. O que esse livro nos apresenta é justamente o ponto de vista de quem perdeu muito mais do que apenas território. Dee Brown nos apresenta uma outra versão do que já conhecemos. E os números são assustadores.

Só para dar uma idéia, o Comissariado de Assuntos Índios trabalhava muito proximamente com o Departamento…de Guerra. Pois é. Como o próprio autor coloca na apresentação do livro: “Nos velhos tempos em que o mocinho ganhava do bandido e casava com a mocinha, ninguém era mais bandido que o índio.”

Vale a leitura e vale a pesquisa sobre o que aconteceu e ainda acontece com os nativos das Américas. Recentemente, a bancada ruralista no Brasil defendeu a PEC 215 e quando não conseguiram aprová-la, as palavras reservadas aos indígenas foram ““meia dúzia de índios e alguns vagabundos pintados”..para nos motrar que a História está aí sendo vivenciada por alguns até hoje.

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3 Comentários em “Resenha – Enterrem meu coração na curva do rio”


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Gabriel Cavalcante em 28.10.2013 às 08:02 Responder

Oi Paty! Boa escolha e boa resenha!
O livro é romanceado, ou é mais como não-ficção mesmo?

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Paty em 28.10.2013 às 08:19 Responder

Nada de romance. É pura realidade em forma de soco no estômago. rs
🙂

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Edelson Carlos Afonso Pinto em 19.04.2015 às 10:43 Responder

Li o livro e vivenciei o drama indígena norte-americano. Na verdade, o índio NUNCA foi bandido. Ele era um defensor de sua terra e sua tribo. Nada mais.


 

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