Resenha – Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos
por Juliana Costa Cunha
em 26/09/18

Nota:

Eu sou daquelas leitoras que adora títulos impactantes, esquisitos ou poéticos. Compro livros apenas pelos títulos, em muitas vezes sem saber nada sobre eles. Este, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, faz parte desta categoria. O impacto deste título me fez querer lê-lo e o pouco que sabia era sobre sua autora e o auê que ela estava fazendo na cena literária contemporânea nacional.

A autora do livro é Ana Paula Maia, carioca, nascida em 1977 e formada em publicidade. Este livro foi uma experiência pioneira, publicado na internet em 2006 e faz parte da trilogia “A Saga dos Brutos”, composta de três histórias divididas em dois livros. “Carvão Animal”, publicado em 2011 e o livro motivo desta resenha. Nele temos duas novelas. A primeira intitula o livro e a segunda que se chama “O Trabalho Sujo dos Outros”, publicado em 2009.

Como sabia muito pouco sobre o livro, o início de minha leitura foi bem incômoda e com muito estranhamento. É tudo muito brutal, não tem alívio no início da história. Ela já começa com os dois pés. Os personagens são embrutecidos e não fazem questionamentos sobre a brutalidade em que vivem. Não há pudor na escrita de Ana.

E eu, acostumada demais, talvez, a personagens que questionam sua vida, seu futuro, que se perguntam o que pode mudar, que desejam algo diferente na vida, que planejam seu fim de semana, suas férias, passeio com as crianças no parque… me senti angustiada pela total falta de perspectiva e aceitação disso pelos personagens criados pela autora.

As duas novelas trazem personagens que tem algumas coisas em comum e sobreviver é uma delas. As outras são: limpar fossas, coletar lixo, matar porcos, nomes compostos ou de personagens de novela da Globo e cinema. Edgar Wilson e Gerson, são a dupla da primeira novela. Eles abatem porcos em um abatedouro clandestino e têm nas rinhas de cachorros sua única diversão. Ao longo da história muitas coisas acontecem, inclusive a devolução do rim de Gerson que havia sido doado à sua prima; e provocar um acidente em função da fuga de um leitão e ter como única preocupação o resgate deste animal. Entretanto, estes acontecimento são apenas entrelinhas no cotidiano de ambos que precisam abater porcos para ter o que comer.

Erasmo Wagner, Alandelon e Edivardes, são os protagonistas da segunda novela. Um é catador de lixo, outro é operador de britadeira e o terceiro é limpador de fossas, respectivamente. Coletando o lixo dos outros Erasmo Wagner já teve tifo, tuberculose, leptospirose e já escapou diversas vezes de ter a mão decepada na coletora. Alandelon, de tanto cavar asfalto tem os batimentos cardíacos acelerados e está praticamente sem audição. Edivardes, que limpa as fossas das casas alheias encontra nelas todos os tipos de dejetos.

Quem recolhe nosso lixo? Quem limpa nossas fossas, escava as vias por onde os carros passam e abate os animais que comemos? São essas pessoas invisíveis que são personagens principais dessa história. Sabe quando objetos sociais se tornam protagonistas?! Bingo!

Tudo se transforma em lixo. Os restos de comida, o colchão velho, a geladeira quebrada e um menino morto. Nesta cidade tenta-se disfarçar afastando para os cantos o que não é bonito de se olhar. Recolhendo os miseráveis e lançando-os às margens imundas bem distantes.

Essas pessoas não tem nenhuma perspectiva de vida. E, no momento em que, durante a leitura, me dei conta que é isso e que a autora não procura provocar em nós leitores nenhum juízo de valor sobre estes personagens e suas vidas, eu passei a enxergar cada um deles tendo empatia por todos.

E se esta não for a mensagem que a autora quer passar, ok! Foi a que ficou para mim e é a que me basta. Ah, e vale dizer, as histórias das duas novelas se cruzam no final. Mas só vai saber quem até lá for. Que venha “Carvão Animal” para fechar essa minha impressão.

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