Resenha – Escravidão – vol. 1
por Patricia
em 27/11/19

Nota:

A chegada dos europeus à América resultou numa das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade. Os números são assustadores, mesmo para os padrões atuais de um mundo habituado a guerras, massacres e genocídios que geram milhões e milhões de vitimas. Nos primeiros cem anos após o desembarque de Cristovão Colombo na Ilha de Hispaniola, morreram proporcionalmente mais pessoas no continente americano do que em todos os conflitos do século XX, apontado como o período mais mortífero da história moderna e contemporânea. (pág. 117)

A história da escravidão está intimamente ligada ao colonialismo. A busca por novas terras de exploração mudou o mapa do mundo tanto do ponto de vista geográfico quanto do ponto de vista de demografia. No Brasil, é impossível de contar a História do país sem falar da África. É por isso que a frase de abertura de “Escravidão – vol. 1”, obra mais recente do jornalista Laurentino Gomes – autor da trilogia best-sellers “1808”, “1822” e “1889”, é perfeita para dar o tom do que veremos sobre o tema:

O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África.

A frase é do missionário jesuíta Antônio Vieira e demonstra bem que a construção do Brasil como conhecemos se deu no mesmo ritmo de uma descontração sistemática de países africanos – principalmente a Angola. Segundo Laurentino Gomes, “nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional. Estudá-lo ajuda a explicar o que fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos daqui para frente.” Isso se torna ainda mais importante quando analisamos que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão e conta hoje com a 2a maior população negra no mundo – perdendo apenas para a Nigéria.

Os primeiros capítulos do livro, o primeiro de uma trilogia, são dedicados a explicar o conceito de escravidão no mundo desde tempos imemoriais. A verdade é que “o homem é o lobo do homem” é um conceito que sempre existiu. Desde que podemos identificar a história humana, estudiosos acreditam já existir a prática de escravizar povos inimigos. O termo “escravos” vem, inclusive, da palavra eslavos que designava um povo de brancos, loiros de olhos azuis da área dos Balcãs que foram escravizados por povos do Oriente Médio e do Mediterrâneo.

Mas, o autor explica, nenhum processo de escravidão de um povo foi tão sistemático quanto o que se fez na África. Além disso, o contexto de escravo africano passou a trazer uma conotação de inferioridade biológica que não existia antes. Na busca por explicar a escravidão ou torná-la aceitável na escala que se via, os brancos europeus criaram a narrativa de que havia algo naturalmente inferior que colocariam os negros em uma posição muito abaixo dos brancos. Foi assim que a escravidão negra se tornou a fonte de um racismo intenso na estrutura social que vemos até hoje.

Houve, ainda, um contexto religioso bem forte no processo todo. Sabemos que a Igreja Católica não só era a favor da colonização e da escravidão como muitos padres e membros da Igreja era parceiros ativos de captores de escravos. Era comum que religiosos tivessem escravos e participassem de leilões. Foi assim que, além de uma discussão racial, também surgiu a explicação de que negros “não tinham alma” e que escravizá-los, portanto, era uma forma de ajudá-los a chegar ao Céu. Criou-se, assim, um arcabouço social-religioso que serviu de “justificativa” para a escravidão africana pelos europeus. Isso sem mencionar os ganhos econômicos.

Uma das intenções da obra, ao que me parece, é quebrar alguns mitos sobre o que os europeus encontraram na África. Ouvimos que as tribos africanas eram inimigas, guerreavam entre si e eram rudimentares em sua organização. Basicamente, a imagem é de que eram grupos de pessoas que viviam sem estrutura, como selvagens. A verdade, porém, é que, ainda que houvessem grupos que vivessem isolados, algumas cidades africanas eram verdadeiros impérios – alguns com milhões de habitantes funcionando de forma muito similar ao que existia na Europa com a monarquia e uma hierarquia de poder.

Além disso, Gomes não foge da importante conversa sobre a participação da elite africana na escravização de seu próprio povo. No capítulo, “Reconciliação” ele cita o documentário Brasil: DNA África (disponível do Youtube em uma gravação um tanto tosca mas que ainda dá para acompanhar) que discute as raízes africanas no Brasil e leva cinco brasileiros descendentes de escravos a suas regiões originárias na África.

Foram 6 anos de pesquisa por diversos documentos e cerca de 200 livros além de viagens por 12 países em 3 continentes para escrever a trilogia. Neste 1o volume, há muitos dados ou informações que podem ser consideradas básicas para quem já estuda ou lê sobre o assunto há algum tempo, mas como esse é o 1o volume de uma trilogia, acredito que o autor precise mesmo dedicar um tempo para nivelar o conhecimento geral dos leitores.

Os capítulos finais discorrem Palmares, quem foi Zumbi e o mito que se criou em torna da figura sobre a qual pouco se sabe. Especificamente sobre esse tema, recomendo o ep. 2 do Guerras do Brasil.doc disponível na Netflix.

Durante a obra, há notas de rodapé não do autor mas de Alberto da Costa e Silva, historiador brasileiro conhecido por seus estudos sobre a África que às vezes complementa o que Gomes escreveu e às vezes assume ter dúvidas sobre um dado ou outro. No geral, a impressão que temos é que há uma conversa aberta sobre dados sobre os quais não se pode ter 100% de certeza.

O tema é intenso e a conversa não é definitiva. Os próximos volumes serão lançados em 2020 e 2021. O volume 1 é um bom começo.

***

O livro foi enviado pela editora.

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Escravidão – vol. 1”


 

Comentar