Resenha – Estrela Distante
por Patricia
em 03/04/13

Nota:

colec3a7c3a3o-folha

Quando vi que a Folha estava lançando uma coleção de livros de autores ibero-americanos, meus cartões de crédito já entraram em pânico sabendo o que vinha a seguir. Juntando isso com a minha enorme impaciência em a) fazer coleção semanal e b) correr o risco de não completar a coleção, eu comprei tudo de uma vez. Recebi a coleção e recomendo totalmente – títulos bem selecionados para os amantes  de literatura latina e é capa dura. Uma lindeza!

Mas vamos falar de Estrela Distante de Roberto Bolaño. Meu interesse por esse autor chileno é porque adoro o Chile e sei que o livro fala sobre guerra e ditaduras – assuntos que me interessam. Sem contar que grandes fãs de literatura latina já comentaram que ele é realmente um autor que vale a pena. Minhas expectativas, portanto, estavam altas.

O livro nos apresenta Carlos Wieder – que por volta de 1971 – se apresentava como Alberto Ruiz-Tagle e participava de vez em quando da oficina literária que nosso narrador também frequentava – era uma oficina que incentivava a a criatividade daqueles que desejavam seguir carreria como autores, poetas e afins. Nesse Chile pré Pinochet (que daria o golpe e assumiria o poder 2 anos depois), ninguém questionava um homem que se dizia poeta mas não escrevia muito e tinha um comportamento estranho. No grupo literário, as irmãs Gamendía chamavam a atenção – eram alunas de sociologia e psicologia e boas poetas, além de muito bonitas.

A média de idade dos participantes não ultrapassava 23 anos e nessa juventude os assuntos iam de política a esporte. Nosso narrador tinha uma queda pelas irmãs e sentia certo ciúme de Ruiz que parecia atrair a atenção aonde fosse. Porém, a dinâmica do grupo muda quando descobrimos que as irmãs foram assassinadas por Ruiz e quatro comparsas pouco depois (essa é uma certeza que o narrador tem e vai se intensificando depois). O motivo só vamos descobrir mais tarde, mas o narrador já nos diz o que ele acredita que aconteceu na noite do crime. Começa uma série de capítulos sobre pessoas que desapareceram sem deixar rastros. Pinochet chega ao poder.

Nosso narrador vai preso, é solto, se exila na Europa para viver no limite da sobrevivência mas continua a receber notícias de amigos que nunca mais vai encontrar. A história de Carlos Wieder segue também com ele ganhando cada vez mais prestígio nas forças armadas chilenas como poeta e como torturador. Duas coisas que nunca achei que poderiam ser colocadas juntas, mas servem para nos mostrar que ninguém é uma coisa só: nem só carrasco e nem só romântico. Nem só torturador, nem só poeta.

A escrita de Bolaño é deliciosa e achei que seria um problema todos os diálogos estarem no meio dos parágrafos sem qualquer indicação, mas a leitura flui bem. Ficamos com a sensação de que alguém está nos contando essa história talvez na mesa do bar mas sem pressa e lembrando-se de quem disse o que e quando, mantendo o leitor na ponta da cadeira esperando pelo resto da história.

Não é necessário ser um gênio para entender a estrela distante do livro. Essa é a bandeira do Chile:

images

O Chile tem sua história manchada por uma das ditaduras mais brutais da América do Sul (já ouvi que a ditadura militar chilena tenha sido, inclusive, tão ou mais dura que a brasileira). Diz-se que Pinochet utilizava o Estádio Nacional como espaço de execução – algo que já vimos em regimes muçulmanos extremistas recentes. Assim, o país livre, com uma educação superior à média da região e uma democracia forte se distanciava das mãos de uma geração que não fez muito e se exilou antes de pensar em lutar contra o regime militar. Cada página desse livro é escrita de maneira quase que para colocar o autor nos momentos específicos que ele descreve, com um tom confessional e passional.

Minhas altas expectativas foram superadas com louvor.

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

2 Comentários em “Resenha – Estrela Distante”


Avatar
suely em 05.05.2015 às 19:08 Responder

Adorei sua resenha. Tenho livros de Bolaño mas ainda não li. Depois de sua resenha vou correr pra isto

Avatar
Patricia em 05.05.2015 às 20:54 Responder

Oi Suely,
Super recomendo viu?! Foi um dos meus livros preferidos do ano quando li. Esse ano, comecei a ler 2666 que dizem que é a grande obra prima dele. Mas é um livro beeem maior e já vi que vai tomar um tempo. 🙂
Se ler o livro, volta para me contar o que achou.

Bjos.


 

Comentar