Resenha – F de falcão
por Patricia
em 06/09/17

Nota:

 

Há diversas maneiras de lidar com a perda. A autora Nina Sankovitch, por exemplo, superou a perda de sua irmã mais velha lendo um livro por dia, dando origem à obra O ano da leitura mágica – sobre o qual já falamos aqui no Poderoso. Livre, de Cheryl Strayed, nos conta como a autora decidiu cruzar a trilha Pacific Crest, uma das mais difíceis do mundo, sozinha e sem experiência prévia para lidar com a perda da mãe. Autores do calibre de C. S. Lewis, Simone de Beauvoir e Roland Barthes também já escreveram obras sobre lidar com a perda de alguém próximo. Claro que lidar com luto é algo que cada um faz à sua maneira. Os livros citados acima têm um traço em comum, mas cada autor(a) decidiu lidar com a situação de uma maneira bem diferente.

Quando criança, Helen Macdonald gostava de observar pássaros. Principalmente falcões. Uma arte pouco comum para uma criança, mas estimulada por seu pai – um fotógrafo que entendia muito bem a importância da arte da observação. Já adulta, Macdonald viu sua vida bem diferente do que esperava: se aproximando dos 40 anos, ela estava sem emprego, sem família e sem casa. Sua vida, que parecia sem rumo, fica ainda pior quando seu pai morre inesperadamente.

Macdonald decide, então, treinar um falcão. Ela sempre quis se dedicar a isso e agora parecia o momento mais propício. Ela desenvolve um plano de um ano para treinar um falcão açor – uma ave de rapina que caça aves menores ou pequenos mamíferos como coelhos. Enquanto acompanhamos a busca para encontrar seu falcão e o processo longo e, por vezes, meticuloso de treinar um açor; também aprendemos mais sobre um outro interessado em falcoaria: o autor T. H. White. White influenciou diversos autores, como J. K. Rowling, e teve uma vida bem complicada. White escreveu um livro chamado The Goshawk quando, tal como Macdonald, decidiu treinar um falcão. Solitário, homossexual e isolado da sociedade de certa forma, White parecia ver no falcão uma chance de redenção, de domar algo ou de controlar algo além de si mesmo.

Publicado em 1951, The Goshawk é um livro mais sobre a falha de White e as consequências severas que tiveram tanto nele quanto em seu falcão. Macdonald quase que usa a obra de White como um guia do que não fazer. Ao longo de sua própria aventura com o falcão, Macdonald descobre uma compaixão por White e, talvez, por si mesma. É como se ela buscasse alguma raiz que pudesse lhe ajudar a se manter sã.

F de falcão ultrapassa a barreira da biografia e de uma obra sobre “superação da perda” mesclando vários estilos de uma única vez e de maneira bem costurada. O paralelo entre sua própria vida e a de White dão um tom quase que de análise crítica à obra. Tal como White, o que vemos aqui é uma mulher lidando com uma perda incompreensível buscando seu lado mais “animal”. Em várias passagens, ela descreve como acompanha seu falcão – Mabel – na caça e como espera enquanto ele despedaça um pequeno coelho.

Como o foco de Macdonald parece ser se reconstruir através da falcoria e de uma análise mais detalhada sobre White, temos alguns momentos dedicados a seu pai, mas não o suficiente para termos uma noção exata de quem ele era. Ela lembra algumas passagens dele como profissional e como pai, mas não é esse o cerne do livro. Sua morte é o estopim para, talvez, uma nova vida para sua filha e é esse ponto de vista que nos é apresentado em F de falcão. 

Escrito de maneira belíssima e envolvente, a autora tem o dom de descrever situações banais de maneira que nada soe banal.

Segurei o papelão e senti sua extremidade cortante. E pela primeira vez entendi o formato do meu luto. Consegui sentir exatamente como era grande. Foi o sentimento mais estranho, como segurar algo do tamanho de uma montanha nos braços. Vocês tem que ser paciente, ele dissera. Se você quer muito algo, tem que se paciente e esperar. Não havia paciência na minha espera, mas o tempo havia passado do mesmo jeito e operou sua magia cuidadosa. E depois, segurando o cartão nas mãos e sentindo suas beiradas cortantes, todo o luto tinha se transformado em algo diferente. Era simplesmente amor.

Um livro duro e visceral sobre perda e superação.

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