Resenha – Foe
por Bruno Lisboa
em 07/06/16

Nota:

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Romancista, ensaísta e linguista. Estas são algumas das várias referências possíveis ao premiado escritor sul-africano J.M. Coetzee, que tem em seu extenso currículo, prêmios como um Nobel de literatura, dois Booker Prizes, entre tantas outros.

Responsável por uma obra vasta e versátil, suas diversas facetas como homem das letras permitiram que ele transitasse entre os mais variados gêneros literários, partindo da ficção, passando pela poesia, à confecção de peças de teatro e no que ele chama de “autrebiography”, que em tradução livre significa biografia construída com ares ficcionais e autorais. É nesta última categoria que o livro Foe se enquadra.

Lançado em 1986 (e relançado agora pela Companhia das Letras ); em Foe Coetzee fabuliza a criação da clássica obra literária Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Datada de 1719, a obra original conta, de maneira semi-ficcional, a história de Alexander Selkirk, náufrago escocês que viveu solitariamente durante anos numa ilha do Pacífico.

De maneira surpreendente, tal como Fitzgerald fizera com O grande Gatsby, Coetzee retira o protagonismo narrativo esperado das maõs dos “heróis” (de Crusoé ou de Foe) e coloca como eixo central um coadjuvante.

Narrada em primeira pessoa, a obra (dividida em 4 tomos) tem como protagonista Susan Barton. A partir de um olhar lirico, sua trágica história pessoal é revelada, mas de modo enevoado e fragmentado por opção própria.

Antes do encontro com Crusoé, Barton estava na Bahia (Brasil) em busca de sua filha perdida. Devido ao insucesso de sua jornada, Susan decide voltar e durante a viagem de retorno ao seu país natal (a Inglaterra) o capitão do navio em que estava é assassinado. Abandonada à deriva pelos assassinos após o motim, ela vaga por horas e chega a ilha em que Robinson Crusoé vive ao lado de Sexta-feira, seu fiel escudeiro e escravo.

O primeiro terço da obra é ocupado pela vida do trio na ilha onde Cruso (assim apelidado pela narradora) criou um insano e autêntico império de homem um só, constituído por inúmeros palacetes de pedra, todos construídos à mão. Assim como a narradora, Robinson também ganha ares misteriosos, pois ele pouco revela de sua vida pré-insular e tão pouco sobre Sexta-Feira que é mudo e não sabe se comunicar oralmente. A tediosa rotina só é alterada quando são resgatados. Na rota de retorno o náufrago falece.

Já na cidade, Susan  é orientada para que procure pelo escritor Daniel Defoe e conte o acontecido na ilha. Acreditando ser dona de um narrativa fascinante e que a sua jornada lhe traria fama e fortuna, a narradora busca desenfreadamente preencher as lacunas de sua própria vivência (e dos outros ao seu redor) para que consiga dar corpo e encontrar o tom necessário a história. Nesse entremeio Susan busca se re-estabelecer na cidade e lida como dilemas pessoais como a reaparição de sua suposta filha e a educação do selvagem Sexta-feira.

A relação conflituosa da musa e o seu atrapalhado interprete (que some durante boa parte do segundo e terceiro tomos reaparecendo ao final) se dá a partir do momento em que a primeira clama pela veracidade e o segundo pelo floreio literário.

Marcada por descrições detalhadas e metáforas, Foe é, em sua essência, uma bela imersão metalinguística ao universo da escrita, seara dominada por ilusões, floreamentos e certas doses de verdade.  

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O livro foi enviado pela editora.

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