Resenha – Fome
por Patricia
em 27/11/17

Nota:

 

Roxane Gay já passou no Poderoso com o excelente Bad Feminist – que em português ganhou o ridículo título: Má Feminista – Ensaios Provocativos de uma artista desastrosa. Na obra, a autora fala de temas diversos desde séries de TV,  como negros são representados no cinema até sua história de violência. Foi através dessa obra que conheci a autora (você pode ver sua palestra no TED também). Esse livro colocou Roxane Gay no mapa de muitas maneiras: de professora de inglês na Purdue University (onde ainda dá aula) ela passou a autora global com sua obra traduzida para diversas línguas, do espanhol ao coreano.

Já a leitura da sua compilação de contos, Difficult Women, não foi tão bem assim. Seus textos têm qualidade, isso é claro, mas seu trabalho de não ficção, ao menos o que conheço até agora, ultrapassa em muito o que ela escreve para ficção. “Fome” é mais um exemplo disso.

O título do livro remete ao tema mais óbvio associado a fome: comida. Ela passa uma boa parte dos primeiros capítulos explicando as consequências de sua gordura: a preocupação e o julgamento dos familiares e amigos; a dificuldade de ter uma vida social ativa e sua relação com seu corpo. Em capítulos curtos, fica claro que algo muito mais sério causou sua glutonia (compulsão por comer).

O capítulo em que a autora narra seu estupro é assustadoramente simples. Uma história considerada comum, ainda que não seja, sob qualquer circunstância, normal. Aos doze anos, Gay foi estuprada pelo menino de quem gostava e seus amigos. Eles riam enquanto a seguravam e machucavam. Nenhum a olhava nos olhos. Ela se sentia uma coisa e depois disso foi uma coisa que ela se tornou. Seu corpo frágil e pequeno a havia traído e ela decidiu que isso nunca mais aconteceria. Ela não contou a ninguém o que aconteceu. Os meninos, porém, contaram para todo mundo da escola uma versão bem longe da verdade, mas que a transformava de vítima em “piranha”. E deixa eu reforçar um dado importante: doze anos.

Aos treze anos, ela pediu para ir para uma escola interna. A família se mudava muito por causa do trabalho de seu pai (engenheiro civil) e ela queria alguma estabilidade, além de ficar longe dos abusadores. E ali, em uma das escolas mais elitizadas dos Estados Unidos, ela perdeu totalmente o controle com a comida. Ela explica que, se seu corpo frágil não a ajudou e nem a protegeu, ela criaria uma couraça, um corpo que evitaria que qualquer um chegasse perto dela e que, paradoxalmente, a tornasse mais e mais invisível.

É impressionante como uma menina de treze anos já havia internalizado a impressão da sociedade sobre a obesidade. Ela já sabia que corpos “fora do padrão” não eram desejáveis. E era isso que ela queria ser: totalmente indesejável. Quando seus pais a colocaram em uma dieta, ela perdeu peso. Mas quando voltou para a escola e seus colegas a elogiaram, ela se sentiu acuada e a atenção a fez voltar a comer de novo. Outra coisa que ela internalizou de maneira muito natural foi a culpa pela violência que passou e o fato de que “ela deve ter pedido por isso”. Porque ela gostava de um dos meninos, ela encarou a violência como um pacto natural entre um homem e uma mulher.

No melhor estilo Roxane Gay, o livro é uma pancada atrás da outra. Quando nos damos conta, já estamos questionando padrões sociais para obesidade, violência sexual, culpabilização das vítimas e mais. O livro é pesado nesse sentido, mas os capítulos curtos nos permitem respirar. E apesar de muitas vezes a autora não compartilhar detalhes das situações que viveu, a contextualização que ela cria é suficiente para compreender uma história que, infelizmente, não é inédita.

Como não poderia deixar de ser, Gay é muito clara sobre o tema cultura e gordofobia, falando de shows que reforçam padrões estéticos para garantir audiência.

No excepcional “A Guerra não tem rosto de mulher”, a bielo-russa Svetlana Aleksiévitch relata depoimentos de mulheres que lutaram no exército soviético durante a Segunda Guerra Mundial frisando que a experiência da guerra não é a mesma para homens e mulheres. Ali entendemos que temos que ser testemunhas, principalmente de mulheres que passam por situações tão difíceis. Esse é um dos fatores que faz com que vítimas ou sobreviventes tenham coragem de compartilhar suas histórias.

Gay explica que demorou mais de vinte anos para contar até mesmo para seus pais o que aconteceu com ela. E essa necessidade de guardar um segredo tão intenso mudou sua vida completamente pautando todos os seus relacionamentos.

Ler Fome é ver aquela menina de doze anos estender a mão e aceitar que alguém vai escutar suas história, sem julga-la. É isso que faz de Fome um livro tão doloroso quanto necessário.

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O livro foi enviado pela editora.

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