Resenha – Gilberto Gil – Refavela
por Juliana Costa Cunha
em 27/06/18

Nota:

 

O livro Gilberto Gil – Refavela, faz parte da coleção O Livro do Disco. A coleção é inspirada na série 33 1/3 publicada originariamente nos EUA. Aos poucos vão sendo publicados aqui no Brasil a coleção que traz em si “álbuns que causaram impacto e que de alguma maneira foram cruciais na vida de muita gente”. Sabendo da importância da música brasileira aqui e no mundo, foram selecionados álbuns nacionais, mas seguindo os mesmo critério da coleção original.

O que sempre me chamou atenção nessa coleção é o fato de ser um livro sobre música, sobre a importância da música no cenário mundial, mas com uma abordagem histórica sobre a elaboração de discos tão importantes. Essa abordagem histórica é bem acessível, trazendo o contexto e os personagens envolvidos no processo. É uma coleção que afirma que música é história e parte importante desse contexto. E, mais ainda, que em alguns momentos da história foi ela, a música, que de alguma forma fez a roda rodar.

Refavela, lançado em 1977, é um disco fundamental na obra e vida de Gilberto Gil. Foi um disco elaborado e gravado em plena eferverscência dos anos 70 em partes distintas no mundo, porém com a força dos guetos e periferias conectadas principalmente pela música negra.

O álbum faz parte de uma trilogia iniciada pelo disco Refazenda (1975) e finalizada por Realce (1979). Estes dois discos são importantes, mas o que fez de Refavela o disco de maior sucesso foi seu destaque para o “mundo negro”. Ele é fruto de uma viagem que Gil realizou para a África, mais precisamente na Nigéria, convidado para participar do II Festival de Artes e Cultura Negra (Festac).

Na primeira parte do livro, encontramos uma pesquisa histórica bem bacana realizada pelo autor Maurício Barros de Castro. Ele nos traz o contexto da época e o surgimento da afirmação do mundo negro aqui e fora do país. Temos também uma bibliografia citada ao longo do texto que me deixou com gostinho de quero mais.

Na obra também ficamos sabendo sobre a importância de Gil e deste álbum para a afirmação da negritude, das religiões de matriz africanas na Bahia e do fortalecimento dos Blocos Afros, em especial do Ilê Ayê, primeiro bloco afro da Bahia, fundado em 1974.

“Que bloco é esse

Quero saber, ê , ê

É o mundo negro

Que viemos mostrar pra você”

(Paulinho Camafeu)

A segunda parte do livro apresenta as músicas do álbum e relata brevemente como e o que cada uma delas quis expressar. Confesso que aqui fiquei um pouco decepcionada. Talvez pudesse haver uma discussão maior sobre as músicas e sua importância. Porém, para mim, não tirou o brilho do livro.

Acho que a mensagem foi bem dada. Refavela é um disco histórico. Elaborado especificamente para dar vasão a um sentimento do artista mas, também (e talvez principalmente), para chamar o povo negro à luta, à afirmação de sua história, à necessidade de união para o fortalecimento da causa. Bem como, à denúncia das barbáries, da falta de oportunidade, do racismo. 

É interessante também pensar na atemporalidade do registro, pois afinal foi em que ano que esse disco foi lançado mesmo? 2018?! 

“AIaiá, kiriê
Kiriê, iaiáA refavela
Revela aquela
Que desce o morro e vem transar
O ambiente
Efervescente
De uma cidade a cintilarA refavela
Revela o salto
Que o preto pobre tenta dar
Quando se arranca
Do seu barraco
Prum bloco do BNHA refavela, a refavela, ó
Como é tão bela, como é tão bela, óA refavela
Revela a escola
De samba paradoxal
Brasileirinho
Pelo sotaque
Mas de língua internacional

A refavela
Revela o passo
Com que caminha a geração
Do black jovem
Do black-Rio
Da nova dança no salão

Iaiá, kiriê
Kiriê, iaiá

A refavela
Revela o choque
Entre a favela-inferno e o céu
Baby-blue-rock
Sobre a cabeça
De um povo-chocolate-e-mel

A refavela
Revela o sonho
De minha alma, meu coração
De minha gente
Minha semente
Preta Maria, Zé, João

A refavela, a refavela, ó
Como é tão bela, como é tão bela, ó

A refavela
Alegoria
Elegia, alegria e dor
Rico brinquedo
De samba-enredo
Sobre medo, segredo e amor

A refavela
Batuque puro
De samba duro de marfim
Marfim da costa
De uma Nigéria
Miséria, roupa de cetim

Iaiá, kiriê
Kiriê, iáiá.”

(Gilberto Gil)
***

Livro enviado pela editora.

 

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Gilberto Gil – Refavela”


 

Comentar