Resenha – Guerra de narrativas
por Bruno Lisboa
em 24/09/18

Nota:

Costumo brincar com colegas na sala dos professores que aqueles que lecionam História estão “ferrados” (para dizer o mínimo) para contar o que aconteceu no Brasil de 2013 para cá.

Desde 2014 o Brasil está rachado, como nunca antes na história desse país (como certa vez um ex-presidente disse num outro contexto). Como os resultados das eleições daquele ano já mostraram, a sociedade brasileira está dividida entre dois grupos políticos antagônicos: a esquerda e a direita. E de lá para cá muitas obras foram produzidas para tentar compreender e analisar o momento caótico que vivemos. E Guerra de narrativas, obra de Luciano Trigo, é uma delas.

Trigo é escritor, editor, tradutor e jornalista. Atualmente escreve para o jornal o Globo. Em Guerra de narrativas o autor tenta traçar uma análise do Brasil de hoje, sob várias perspectivas. De forma inicial, ele consegue de maneira acertada problematizar, com imparcialidade e abrangência, a máquina política, seus mecanismos e como elas podem ser conduzidas, para o bem ou para o mal, já que ambos os lados (esquerda e direita) julgam-se donos da verdade e das melhores propostas para o país. Até aqui tudo bem. Mas, infelizmente, nos capítulos seguintes o autor comete um erro crasso do jornalismo: a escolha por contar somente um lado da história.

Partindo de um clichê, Trigo se vale da premissa malfadada de que o cenário caótico em que estamos vivendo diariamente é “culpa é do PT”, seus governantes e a ideologia de esquerda. Pois, como ele pontua, foram “eles” (os governantes petistas) que estavam no poder a décadas e cometeram falhas grotescas que resultaram na maior crise econômica de nossa história recente.

Antes que a análise do livro siga é preciso pontuar: não sou Petista. Mesmo que reconheça que a era Lula tenha sido uma das melhores que tenha vivido, com avanços históricos em vários campos (educação, saúde, economia…), tenho uma enorme decepção com este período, pois eles tiveram a oportunidade de mudar o jogo corrupção (originado muito antes do chamado lulopestismo, verdade seja dita), mas deixaram que o barco seguisse por águas sujas. Mas como bem sabemos a culpa não é só do Partido dos Trabalhadores, do Lula ou de Dilma.

Num panorama simples e objetivo basta observar gestões estaduais como a de Alckmin em São Paulo, a era Neves/Anastasia em Minas e de Beto Richa no Paraná. Só para ficar em alguns exemplos recentes, eles também usaram da má fé e cometeram abusos orçamentários e operações ilícitas no mesmo período, mas seguem sem investigações (“misteriosamente”) por parte da Polícia Federal. De fato o autor chega a ponderar brevemente sobre a origem da corrupção e aponta erros de gestões anteriores (FHC e Color), mas assim como as ações da Lava Jato pecam pelo recorte (ao também criminalizar aparentemente o PT). Trigo também erra por não trazer uma visão abrangente da política nacional, observando a conduta de outros partidos.

Como se não bastasse, Trigo defende Temer, suas medidas econômicas “salvadoras” (que de fato só pioraram o cenário) e afirma que “não houve golpe” a partir do momento que o impeachment foi  algo constitucional, afinal nada fora forjado. Mas, justamente essa semana, o senador Tarso Jerreisati (ex-presidente do PSDB) disse que o partido errou feio “ao votar contra princípios básicos nossos, sobretudo na economia, só para ser contra o PT”, legitimando assim o golpe.

Por fim, análises feitas assim no “olho do furarão” impendem de ver o todo. O distanciamento histórico é fundamental para poder pontuar como foi determinado período. Por estas e outras Guerra de narrativas peca por querer dar luz a algo que ainda está em pleno acontecimento e tropeça, em suas próprias pernas, ao querer ser o dono da verdade em tempos onde as fake news imperam.

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O livro foi enviado pela editora

 

 

 

 

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