Resenha – Herland: A terra das mulheres
por Patricia
em 04/03/20

Nota:

Charlotte Perkins Gilman causou certo furor nos leitores nacionais quando sua obra “O papel de parede amarelo” foi lançado no Brasil em 2016 – 124 anos depois de sua publicação original. Apresentado como um “clássico da literatura feminista”, o conto sobre uma mulher forçada a ficar presa em um quarto para seu próprio bem e que acaba enlouquecendo nos mostrava uma autora pronta para discutir as principais questões de sua época.

A autora era conhecida por suas falas a favor de reformas sociais, principalmente no que tocava a vida das mulheres. Em muitas questões, ela estava à frente do seu tempo. Em 1888 ela se divorciou de seu marido (algo raro na época), em 1894 mandou sua filha viver com o pai e a nova esposa e reconhecia o direito e a responsabilidade da paternidade, virou editora de uma revista que falava principalmente sobre questões feministas – incluindo o termo feminismo.

“Herland” vem inspirado por sua crença de que a vida doméstica e a religião oprimiam as mulheres e estavam encharcadas de um contexto patriarcal. Na obra, ela cria um país afastado, envolto em mistério e liderado por mulheres e sem homens. Não se lembram mais quando existiram homens por ali. O livro é um testamento, ou pretende ser, do que uma sonoridade pura poderia construir para a sociedade.

Três amigos decidem encontrar esse país e quando chegam se deparam com um país cuja religião foi criada por e para mulheres; o conceito de maternidade sendo cultivado como algo coletivo; uma hierarquia social quase inexistente.

Os homens se chocam ao perceber que as leis ali não tem mais de 20 anos enquanto a sociedade da qual vinham, as leis eram centenárias e as tradições, milenares. A crítica é clara: a tradição não traduz as mudanças do tempo, necessariamente, e é importante que as regras e leis – bem como deveres e direitos – dos cidadãos sejam revistos para que traduzam o que a sociedade necessita.

A narração é de um dos homens que chegam à Terra das Mulheres e isso nos ajuda a entender o “susto” deles de forma mais óbvia. Além disso, o narrador não perdoa seus companheiros e nos entrega todos os chauvinismos que eles carregam. Eles analisam as mulheres quase o tempo todo, no começo, por sua beleza (ou que entendiam como beleza).

É improvável que mulheres, apenas um grupo de mulheres, tenham se mantido juntas assim! Sabemos que elas não conseguem se organizar. Que brigam por qualquer coisa e são extremamente invejosas. (pág. 69)

Aquelas mulheres, cuja distinção essencial da maternidade era a nota dominantes de toda a cultura, eram marcantemente deficientes do que chamamos de “feminilidade”. O que me levou rapidamente à conclusão de que os “charmes femininos de que tanto gostamos não são nem um pouco femininos, mas mero reflexo da masculinidade – desenvolvidos para agradar porque elas tinham de nos agradar, nada essenciais para o desenvolvimento de propósitos maiores.” (pág. 70)

As mulheres os recebem com verdadeiro interesse e abrem seu país, seus ensinamentos e estão prontas para aprender sobre o país deles também. Eles descobrem, chocados, que tecnologia e invenções não são domínios masculinos e que aquelas mulheres haviam criado uma utopia.

O fato de três dessas mulheres desenvolverem relacionamentos com esses visitantes é um pouco anti-climático. Quase como se Gilman tivesse se rendido ao romance necessário em “livros femininos” da época. No entanto, a autora usa, ou tenta usar, esses relacionamentos para mostrar que essas mulheres não seriam facilmente controladas.

Elas não tem modéstia – Terry retrucou. – Não tem paciência, não são submissas, não tem nada da docilidade natural que é o maior charme da mulher. (pág. 111)

Ler utopias pode ser levemente cansativo justamente porque pode faltar um pouco de clímax. Se tudo é perfeito, o que poderia dar errado? Gillman, no final da obra, cria esse clímax mas estamos falando do penúltimo capítulo. Até lá, temos apenas um dos homens rabugentos reclamando do que vê e desacreditando dos fatos apresentados.

No geral, é uma boa leitura e dá muito o que pensar sobre o papel da mulher na sociedade e o que ele poderia ser se apenas elas pudessem ter voz. E mesmo 124 anos após sua publicação não podemos esquecer que ainda há coisa que não mudaram em sua essência.

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