Resenha – História do Futuro
por Gabriel
em 30/09/15

Nota:

História do Futuro

Cheguei a essa obra graças ao catálogo da parceira Intrínseca. O nome da conhecida jornalista me atraiu em meio aos outros títulos e a escolhi para manter o projeto de leitura de obras escritas por mulheres. De fato também fui levado por uma vontade de ver pontos de vista que sabia que tinham grande chance de ser diferentes dos meus.

Míriam Leitão é uma das jornalistas mais conhecidas no Brasil, tendo atuado ao longo de sua carreira em diversos programas de TV, jornais e telejornais, entre participações em outros veículos. História do Futuro é seu sexto livro e se dedica a analisar o que o Brasil teria que fazer para que suas possibilidades de um futuro melhor se confirmem.

O livro é dividido em áreas que a autora considera prioritárias em uma análise de futuro do país. Em cada área, grande volume de dados e a análise-opinião da autora, com referências ao passado sempre que necessário. Falarei brevemente sobre os capítulos que considero de maior destaque, já que há variações entre as abordagens escolhidas e o volume de informações em cada um deles.

O primeiro capítulo, “A terra que recebemos por herança”, fala sobre o meio-ambiente. Aqui Míriam abre bem o livro, apresentando dados extensos de fontes confiáveis e fornecendo um panorama bem interessante da situação do meio-ambiente no Brasil, especialmente na Amazônia. É verdade que a visão das comunidades indígenas e ribeirinhas aparece incomodamente pouco, mas a mensagem de preservação está lá e fica clara, além de servir como base para o restante da obra. Este capítulo e o segundo, “A nova demografia”, dão o tom do cenário  que se desenha para que este futuro se construa.

Nestes primeiros capítulos são exibidos muitos dados que tornam a análise rica. Por outro lado, a ideologia de Míriam começa a permear as análises, gerando passagens, por exemplo, em que ela claramente demonstra ver a floresta como um ativo do país, algo que precisa ser precificado, o que na realidade é no máximo uma das diversas formas como se pode ver esse ecossistema. Isso se repete ao longo do livro em alguns outros assuntos, o que é totalmente justificado ao considerarmos que trata-se de uma obra de opinião – é só importante que se tenha isso em mente a todo momento, pois o tom da autora por vezes passa a impressão de uma verdade absoluta.

Nos capítulos em que analisa a educação e a economia a autora está em casa. Estas áreas são as que Míriam mais comenta em seu dia a dia e, até por isso, aqui se encontram análises sóbrias e cuidadosas. Novamente fica clara a ideologia que permeia o discurso quando ela fala sobre a estabilidade da moeda, a derrota da hiperinflação ou ajustes fiscais, mas de modo geral os capítulos se comportam de forma bastante honesta.

A maior parte dos outros capítulos se desenrola bem, contando com trabalhos de pesquisa extensos e bem feitos. Porém, em um deles aparecem omissões importantes que dão o amargo gosto de que a jornalista pode ter se deixado levar por preferências políticas: no capítulo 11, sobre cidades, Míriam pontua como boas práticas diversas iniciativas globais de gestão de cidades, muitas das quais estão sendo tentadas em São Paulo pelo prefeito Fernando Haddad. Em seguida, comete um parágrafo que é difícil justificar: ao informar o leitor de que este político tem iniciativas semelhantes, ela emenda falando sobre a baixa popularidade do governante em contraste à aprovação das medidas, o que parece uma tentativa de dissociar a medida do seu perpetrador – algo totalmente desnecessário no contexto do livro e que não é feito nem em relação às gestões dos presidentes Lula, FHC ou Dilma, abordadas o tempo todo durante a obra.

Diferenças políticas e ideológicas à parte, Míriam Leitão é uma analista poderosa e sensata. O livro é ponderado enquanto faz projeções arrojadas (por mais que isso soe paradoxal) e tem um estilo fácil de acompanhar. Talvez a autora pudesse ter usado menos frases de efeito, que por vezes enchem os capítulos em meio aos dados; mas o recurso retórico pode ser importante para que a obra não fique enfadonha. Um livro interessante, em suma. Cai bem para o momento em que vivemos. Ou pelo menos para entender melhor alguns consensos e onde nos encontramos como país.

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O livro foi enviado pela editora. 

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